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Cata ventos: Palavras do futebol

Costa Alves - 01/03/2018 - 8:46

mcosta.alves@gmail.com

 

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Não sei se o leitor aceitará esta prosa com palavras colhidas entre as quatro linhas que delimitam retângulos para futebol.

Dirá: “O quê? Mais futebol? Também aqui? Não basta termos de suportar a inflação de fanáticos e ‘cartilheiros’ que acampam nos canais televisivos (ditos) de notícias?”

Respondo: gosto de futebol e também me repugnam as bancadas de gente enfurecida por paixões maiores do que o respeito que (se) devem.

Como me repugna o desfile de Carnaval onde, por exemplo, um dirigente associativo, autarca eleito, exibe na ponta do nariz a sua caricatura de órgão genital masculino.

Desfile de Carnaval que, diga-se de passagem, ao contrário da tradição, abandona a linha de sátira aos poderes e aos costumes e se passeia mastigando servilismo.

Mas, tratemos da ‘bola’ - também responde por esférico, passando de espaço geométrico (adjetivo) a corpo de substantivo.

Pratica-se com o pé (football) mas há guarda-redes para poderem fazê-lo sobretudo com as mãos.

Guardam as redes que guarnecem balizas onde a ‘redondinha’ (também assim relatada) não deve entrar.

Os brasileiros, que são ainda mais prolixos e imaginativos no campo lexical, chamam-lhes ‘goleiros’ - o que parece contraditório.

Pela lógica comum, ‘goleiro’ seria quem mete a bola na baliza; não quem ‘sofre um golo’. Sofre-se um golo?

A propósito dos ‘guardiões’, não quero deixar sem referência uma das suas proezas mais vaporosas: o ‘golpe de rins’.

Não conheço explicação médica, mas sempre me espantou esta designação para o golpe de asa que salva o ninho.

Dizem os relatores que o guarda-redes não calculou como devia a trajetória da bola e ‘deu um frango’ ao adversário que a tinha chutado com ‘o pé que estava mais à mão’. Dizem os livros que essa defesa falhada se equipara à oferta de um frango, como em tempos faziam quando agradeciam um favor a alguém mais influente. Será? Hum!...

Quando jogava no estádio do Vale do Romeiro (em campo ‘pelado’), por vezes jogávamos ‘à Palvarinho’ e deixo histórias por contar sobre pontapear a bola para onde estamos virados com fé nos ventos do destino.

Também se ‘rasteiravam as canelas’ quando passava a bola e não o homem. Outra forma de dizer ‘jogar à sarrafada’.

Há quem engane com uma ‘finta’ ou um ‘drible’ mantendo a bola sem que o adversário consiga “cortá-la”. ‘Cortam’ a bola? Muito nos ensina o futebol sobre como vamos de imagens, simulações e enganos.

E sobre a mimética entre futebol e política e de como mercadejam na feira dos enganos.

O futebol construiu em volta do ‘prélio’ (também lhe chamam ‘partida’; ‘partida’ para onde?) campos lexicais e semânticos próprios.

A narração possui uma expressividade vinda de intensíssimas emoções e, claro, produz desvios linguísticos e transgressões às normas da língua padrão. Se tivesse espaço, evocaria metáforas como ‘fazer um chapéu’ ou um ‘alívio’, jogar como ‘trinco’ ou como ‘ponta de lança’; uma lista interminável.


Apesar da enlouquecida mercantilização do futebol, ainda vejo futebol como Carlos Drummond de Andrade: “São voos de estátuas súbitas,/ desenhos feéricos, bailados/ de pés e troncos entrançados./ Instantes lúdicos: flutua/ o jogador, gravado no ar/ - afinal, o corpo triunfante/ da triste lei da gravidade.”

Ou, então como na escrita de outro grande poeta brasileiro (João Cabral de Melo Neto): “Não é a bola/ alguma carta/ Que se leva de casa em casa:/ é antes telegrama que vai/ de onde o atiram ao onde cai.” Tem caído na rua de muitas amarguras.


mcosta.alves@gmail.com

 

COMENTÁRIOS

António Serrano
Este ano
Texto de grande qualidade, irónico quanto baste, doendo a saudade de um tempo que não volta das aulas do dr. José Ferreira, no nosso Liceu. Deliciei-me! Bem hajas, Manuel!