Portugal arde todos os anos, de há uns anos a esta parte com mais frequência e violência. E, da maneira como o problema é tratado pelo poder central, não terá solução razoável nos próximos anos. Aliás, este nem sequer é um assunto importante no cadastro das ilusões distribuídas, aos quatro ventos, por altura das eleições. E quanto às medidas preventivas tomadas por este Governo, a questão resume-se em sacudir responsabilidades e atirar tudo para cima dos proprietários florestais, isto é, em linguagem depois dos incêndios: cobram-se os dividendos às vítimas. A única coisa que os Governos fazem é aumentar os meios de combate, mas para contrabalançar reduzem na coragem para combater as chamas, no conhecimento para enfrentar fenómenos excepcionais e na desculpabilização da inépcia. Até proibiram a forma mais eficaz de combater um fogo descontrolado: o contra-fogo: sem essa arma continuaremos a ter incêndios de 3, 4 e 5 dias — terminam quando a densidade florestal abranda ou quando se chega à fronteira dos incêndios anteriores, ou à costa marítima, como no Algarve. Depois há outro erro crasso: só se atacam os incêndios junto das povoações, quando a desgraça está consumada. Para se abrigarem de qualquer responsabilidade, chamam logo a atenção, nas mediáticas conferências de imprensa, enquanto o fogo consome tudo, que o importante são os bens e as pessoas. Como se a floresta, com o seu complexo e riquíssimo mundo animal e vegetal, não fosse o maior bem — como as civilizações antigas sabiam. Agora deixou ser um bem, é uma ameaça.
O que não muda são as vítimas; sempre as mesmas, ano após ano: a arraia miúda, na maior parte população envelhecida que resistiu aos apelos coloridos da urbanidade. Os beneficiários deste negócio, cada vez mais nojento, perdem-se em uma rede infinita de interesses e ninguém precisa ser especialista em antropologia social para perceber que muitos deles beijam as chamas no seu combate. São muitas as causas dos incêndios, mas os Governos e a Comunicação Social em geral tratam-nos já como fenómenos naturais, como se acontecessem do mesmo modo que surge uma trovoada ou como germina o feijoeiro. Se exceptuarmos uma escassa percentagem que acontecem acidentalmente, como os originados pelas trovoadas secas ou os que resultam da acção negligente do ser humano, muito mais de 90% deles acontecem de uma forma criminosa. Raramente se fala dos malfeitores, nunca se diz o nome deles nem lhes conhecemos o rosto; das vítimas, desamparadas e de sentimentos frágeis, filmam-nas no choro e na histeria. Os pirómanos deviam, por veneração aos princípios morais, sofrer pesadas penas, ignominiosos castigos, mas o sistema judicial português manda prendê-los por uns escassos aninhos, que se encurtam com as hipócritas amnistias natalícias ou então manda recolhê-los a casa com pulseira, com um ordenado que nós temos de lhes pagar — e com condutor se precisar de sair da sua residência. Isto é infame! Reina uma hipocrisia e uma impunidade inenarráveis na sociedade actual! A Justiça não passa de uma mendiga andrajosa, ao passo que o castigo foi banido e expulso da vida humana: da educação,
Aos pirómanos devia-se-lhes cortar uma mão de cada vez que incendeiam e àqueles que os mandam devia-se-lhes cortar as duas. Isto ouvi eu da boca de uma nonagenária, quando combatia um incêndio no Moradal, há dois anos. Então sim, a ferida da maldade que atinge o nosso país estancava, o sangue dos inocentes não seria derramado e os seus bens esbulhados impunemente. Portugal devia reclamar para si, como quem se ufana de um grande feito épico, o acrescentar à carta dos direitos do homem um “artigozinho” sobre os direitos dos incendiários. E se o “artigozinho” não está consagrado de jure, na carta, tem a sua consagração diária de facto.
Mas há uma palavra ainda mais dura que tem de ser dita nesta breves anotações de revolta. Só as autoridades que nos governam, desde o Presidente da República ao Primeiro Ministro, fingem não ver que a estratégia seguida pela Protecção Civil de badalar, como notícia de abertura do Telejornal, que os distritos x e y estão em risco máximo de incêndio, produz os efeitos contrários aos previstos. Lembrem-se dos incêndios de Outubro de 2017, quando a mesma autoridade assoprou por tudo quanto era meio de comunicação social que no dia 14 a temperatura previa-se demasiado alta para a época e a humidade do ar baixíssima. Isto quando os meios de combate já estavam, na sua maior parte, a descansar. Lembram-se o que aconteceu? Se não se lembram perguntem aos habitantes de Madeirã, Sobral ou de Álvaro. Era o Inferno, diziam!
Quem tem uma nesga de consciência e bom senso não devia lembrar aos pirómanos que há condições ideais para incendiar, porque tais avisos não aproveitam aos residentes campestres, pois sabem melhor como viver na floresta do que aqueles que propalam esses alarmes sentados em cadeirões à brisa matinal do Atlântico. A grande perícia das autoridades que combatem os incêndios em Portugal pode reputar-se extraordinária mas apenas nas aplicações da internet e na contribuição para um espectáculo degradante, pornográfico, alucinado, que as televisões sugam e vomitam horas a fio. E uma grande parte do país, embrutecido e anestesiado pelo poder hipnótico do espectáculo, consome as imagens com a mesma voracidade que os fanáticos católicos vibravam ao presenciarem as fogueiras da Inquisição.
As quantias astronómicas que se gastam com o combate (que engorda imensas criaturas sem escrúpulos nem moral), se fossem gastas na prevenção, estou absolutamente certo de que em meia dúzia de anos não seria possível haver incêndios que lavrassem dias e dias seguidos. Bastava três medidas, de consequências drásticas e profundas: retalhar a régua e esquadro a floresta, acompanhar essa medida com uma apertada rede de caminhos florestais e pontos de retenção de água (e a limpeza daqueles anualmente), apostar nos meios aéreos do Estado; seguidas de perto por punir violentamente os incendiários. Se ¼ do orçamento para o combate fosse gasto nas medidas preventivas atrás referidas, em 2025 não haveria um incêndio em Portugal que durasse mais de um dia. Nada de isso se fará, estou certo.
Por fim, na ressaca de cada catástrofe, surge sempre uma procissão indecorosa de criaturas que deixa as cadeiras do poder na capital e vem distribuir, de forma gratuita: beijos, abraços, promessas, lágrimas de crocodilo, palavras tolerantes, para aplacar a dor e a revolta dos miseráveis. Não falta então, no séquito da sociedade do espectáculo em que vivemos, o directo televisivo, a comoção geral. Entretenimento tão próximo do efeito reality show, que nessa altura sinto nojo e vergonha de ser português.
Bem escrito, bem pensado, sem medo das palavras porque são as certas no lugar certo.