Digressões Interiores: As tuas redacções ou as novelas fora de tempo

João Lourenço Roque - 13/06/2019 - 8:00

Já não era sem tempo, mas finalmente é mesmo desta… Na nossa região são às dezenas ou às centenas os “tortulheiros”, encartados ou clandestinos, que na época própria, de Fevereiro a Abril, largam tudo e correm aos tortulhos. 

Já não era sem tempo, mas finalmente é mesmo desta… Na nossa região são às dezenas ou às centenas os “tortulheiros”, encartados ou clandestinos, que na época própria, de Fevereiro a Abril, largam tudo e correm aos tortulhos. Mas, tanto quanto sei, apenas eu costumo fazer um “balanço da campanha” e prestar contas às Finanças. Em 2019, apesar das flutuações climáticas, a colheita foi razoável ou mesmo boa. As vendas correram bem, embora alguns mercados importantes, em especial o de Cacilhas, tenham sido “pataqueiros”. Todavia os custos em pessoal – que só se contenta com altos salários – e, mais ainda, em equipamentos subiram bastante, de tal modo que no parecer, bem fundamentado e rigoroso, da minha especialista em contabilidade a “firma” se encontra à beira da falência. Se não houver apoios de vulto, o mais certo será “ir tudo para a barroca” e eu ficar encalacrado… Já pensei em candidatar-me a fundos da União Europeia mas em Bruxelas ninguém me conhece e se calhar nem sabem o que são tortulhos. Por isso, o mais viável será bater à porta de quem sempre nos tem ajudado em diversas situações – a Câmara Municipal e a Junta de Freguesia que, por certo, não quererão deixar morrer uma empresa familiar que, embora pequena, tem contribuído para o prestígio do concelho e da freguesia, através da excelência de produtos certificados, com grande aceitação em inúmeros e exigentes mercados, conforme testemunham as medalhas já alcançadas em vários concursos. Sem esquecer a vertente humanitária e social, porque são muitas as minhas ofertas de tortulhos a famílias e a pessoas isoladas que não sabem ou não podem apanhá-los. Para o ano se verá, se lá chegarmos.

houve em que gostava de guardar “amoringos” e papéis da escola. Infelizmente, “tudo o vento levou” e nada resta dos meus “arquivos” infantis. Além de mim, julgo que nenhum dos meus companheiros e companheiras da instrução primária nas escolas das Teixugueiras e de São Domingos saberá onde param livros e cadernos. Se ainda os tivéssemos poderíamos, nas ocasiões em que as saudades mais nos apertam e a curiosidade histórica mais nos assalta, “regressar à infância” e desvendar ou reconhecer quem éramos e quem fomos naqueles tempos e naqueles ambientes familiares, educativos, sociais e culturais. Tempos e ambientes há muito desaparecidos, pendurados nas lembranças de quem ainda se lembra. Desleixo meu, desleixo nosso ao perder ou ao deitar fora documentos e vestígios essenciais da nossa história e das nossas vidas naqueles dias em que sem sabermos o futuro principiava. Desleixo meu, repito, e sorte a minha! Recentemente, por mero acaso, alguém me deu a conhecer alguns dos seus cadernos escolares, muito bem conservados e arranjados, seguros com lacinhos cor-de-rosa. Cadernos de uma menina – já adivinharam… -, da nossa freguesia mas de outra escola. Ao que julgo saber, aluna muito aplicada e distinta em todas as matérias – tabuada, contas e problemas, desenho, história e geografia, orações e doutrina, cópias, ditados e redacções. Nascida numa família de boas posses, bem poderia ter ido mais longe… Em homenagem às tuas e às nossas professoras, mais ainda em revisitação do passado e dos meninos e meninas que já fomos, tão simples e quase inocentes, aqui transcrevo três redacções – “As flores”, “O cão” e “Os velhinhos” – com pena de que não seja na tua letra bonita, firme e encarreirada. Eis a primeira, escrita a 21 de Março de 1953 na 2ª classe: “O cão tem muita utilidade. Eu não tenho nenhum cão. O cão é que nos agarra os coelhos e as lebres. Eu gosto muito do cão. O cão também serve para andar atrás do caçador “. Não me leves a mal o comentário que me ocorreu, em tom de brincadeira: que grandes caçadas as de um caçador com o cão atrás dele!... Eis a segunda, escrita a 7 de Julho de 1954 na 3ª classe: “As flores têm muita utilidade. Eu gosto muito de flores. Eu também tenho muitas flores. As flores servem para enfeitar as nossas casas, as Igrejas, as escolas, etc. Eu conheço muitas qualidades de flores: cravos, rosas, lírios, malmequeres, malvas, amores perfeitos, etc. Algumas cheiram muito bem. Na minha escola há lá muitas flores lindas”. Eis a terceira (datada de 1955): “Nós devemos respeitar muito os velhinhos. Os velhinhos devem-se tratar muito bem. Eu gosto muito de tratar bem os velhinhos. Os velhinhos têm os cabelos brancos e a cara cheia de rugas. Eu gosto muito dos velhinhos”. Atrevo-me a acrescentar: mas que sorte a minha por gostares tanto dos velhinhos!... Sol de pouca dura, porque isso era dantes… Nestes e em idênticos textos escolares – que deixo para outras crónicas -, palavras e coisas tão singelas e ingénuas, vivências e imaginações próprias da idade e de quem nasceu e cresceu nos campos de Sarzedas e da Beira Baixa. Coisas tão singulares e importantes para quem ali viveu e ali deixou alguns dos melhores pedaços da sua vida. Vidas pequenas e atrasadas no meio de tantos atrasos, soubemos mais tarde. Vidas felizes e autênticas nas alegrias que sentíamos ou inventávamos… Bem-hajas, Maria, pelos teus sentimentos e pelas tuas redacções. Ao lê-las parece-me que volto à infância e às cenas da vida quotidiana no mundo rural em meados do século XX. Por breves momentos – breves mas eternos, se a eternidade existisse – volto a sentar-me nas carteiras da escola, agora a teu lado… Pode ser que amanhã queiras ler-me as cartas que nunca me escreveste e mostrar-me as tuas cerejeiras, o teu jardim, a tua casa, os teus livros, os teus retratos, as tuas tranças, os teus vestidos, as tuas rendas, os teus véus, os teus anéis e cordões de ouro… Agora que mais olho para o passado, imagino quão diferente seria o teu destino se tivesses ido para o liceu e para a universidade. Também eu gostava muito de redacções. A seu modo, as crónicas que vou escrevendo são as minhas redacções da “terceira ou da quarta idade” … Não sei quantas redacções terei escrito na escola primária ou no liceu. Como já disse voaram todos os meus “amoringos” e papéis da infância. Também nada restou dos sete anos liceais e, a não ser na memória, pouco guardei da vida universitária. Custa a acreditar, mais parece um desvario ou um “sacrilégio”, da parte de um professor universitário. Razões sem razão… de quem passou grande parte da vida a aprender e a ensinar história. Durante vários anos enredado nas voltas da história política e económica. Depois, mais anos ainda, cativado pela história social, nos meandros de novas e aliciantes temáticas. Após a aposentação, descontente com Coimbra, atraído pelos refúgios beirões e pelos derradeiros fogachos de vida comunitária em aldeias quase perdidas, esmoreceram de vez os meus interesses académicos e universitários. Afinal, pensando melhor, para quê guardar “papéis” e deixar trabalho ou tristeza a quem tiver que os rasgar… Recentemente apeguei-me à descoberta dos meus antepassados e das minhas origens. Por enquanto só alcancei a linha e os ramos dos meus trisavós. Disso espero dar conta em próximas crónicas. Até lá, prossigo nos encontros que me prendem e nos “romances” que imagino. Novelas que ninguém entende, novelas fora de tempo.

 

COMENTÁRIOS

Maria Beatriz
Na semana passada
Espero que as minhas apreciações às tuas crónicas não sejam novelas nem redacções...Mais uma de âmbito pessoal.
Sobre o teu negócio- não gosto de cogumelos, não fazias negócio....A tua infância, tal como a minha não deixou rastos, era assim...Penso que a vida académica não foi tão esquecida, ainda se nota certa tristeza em ti...Muito interessante esta crónica.