Entrei de vez na última idade. Não há volta a dar, para a velhice não existe plano B. Tão breve e complexa a vida! Só eu sei as fronteiras e os desertos que tive que atravessar. Agora que já é tarde, deu-me para descer no tempo à procura dos meus antepassados, à procura de mim próprio. Através dos registos paroquiais digitalizados, graças à mestria e ao talento da Maria Antónia. Recuei até às primeiras décadas do século XIX, quando sopravam os ventos e as convulsões do liberalismo e as Sarzedas ainda eram concelho. Alcancei a linha dos meus trisavós, o que me permite refazer e ampliar o bilhete de identidade, quase toda a vida confinado à filiação: Adelino Roque (1919-1990), dos Calvos, e Ana Lourenço (1917-2003), das Teixugueiras. Em defesa dos laços de família, aqui registo novos dados de identificação: Neto paterno de José Roque das Garridas (nascido a 30 de Novembro de 1886 e baptizado a 12 de Dezembro) e de Maria Nunes dos Calvos (nascida a 24 de Junho de 1884 e baptizada a 1 de Julho), que casaram a 27 de Janeiro de 1909; neto materno de João Gonçalves dos Vilares de Baixo (nascido a 15 de Outubro de 1876 e baptizado a 29) e de Delfina Lourenço das Teixugueiras (nascida a 4 de Agosto de 1877 e baptizada a 26), casados a 26 de Setembro de 1900. Bisneto “paterno” de Joaquim Roque, lavrador, dos Calvos e Joana Rosa das Garridas, de Manuel Nunes e Delfina Gonçalves, ambos dos Calvos; bisneto “materno” de Luís Gonçalves, lavrador, e Rosa Maria dos Vilares de Baixo, de João Lourenço, lavrador, de Mendares e Marcelina Fernandes das Teixugueiras. Na mesma ordem, trineto de: João Roque dos Calvos e Isabel Marques de Vilares de Baixo, Manuel Gonçalves da Boselha e Rosa Bastião (?) das Garridas, João Nunes das Benquerenças e Joana Rodrigues dos Calvos, Manuel Gonçalves dos Calvos e Quitéria Maria da Rapoulinha; Francisco Gonçalves dos Perais e Josefa Maria dos Vilares de Baixo, Manuel Luís da Cardosa e Rosa Maria dos Vilares de Baixo, Domingos Lourenço e Maria Antónia, ambos de Mendares, Pedro Fernandes do Vale das Ovelhas e Francisca Maria dos Calvos. De pesquisa em pesquisa, descobrimos datas, terras e nomes, repetidos ou singulares. Os vossos nomes, lindos nomes: Ana, Francisca Maria, Isabel, Maria, Maria Antónia, Rosa Maria; Pedro, João – o meu nome, herdado dos vossos nomes. As minhas origens nas vossas origens. Sempre soube que pertencia aos Calvos e às Garridas, às Teixugueiras e aos Vilares de Baixo. Fiquei a saber que também pertenço à Mendares, à Boselha, às Benquerenças, à Rapoulinha, aos Perais, à Cardosa, ao Vale das Ovelhas. Destaco a Cardosa e os Perais. A Cardosa, de onde veio o meu trisavô Manuel Luís, para casar nos Vilares de Baixo, que originou o ”ramo dos Cardosas”. Os Perais, despovoados há mais de um século, talvez século e meio, de onde saiu o meu trisavô Francisco Gonçalves também para casar naqueles Vilares. Conta-se que a última moradora naquele lugarejo tinha por companhia um galo que lhe servia de despertador… Confirmei que todos lidaram nas fainas agrícolas e pastoris, que todas se ocuparam “no serviço de casa”. Consigo imaginar que viveram e suportaram vidas simples, austeras e sofridas, aliviadas por fogachos de alegria e momentos felizes. Vidas fechadas, sem palavras nem imagens. Vidas certas e incertas moldadas em rigorosos ensinamentos e convicções. Não duvido dos vossos sacrifícios e virtudes. Presumo que alguns “vícios” chegaram até mim. Sei que nos deixaram boas heranças. Descobri ou “adivinhei” tanta coisa… quase tudo, quase nada. Nada sei do vosso porte, das vossas figuras e personalidades. Nada sei das “heranças genéticas”, das parecenças, dos traços físicos e psicológicos que se perderam ou perduraram. Retratos não havia, retratos só o do meu avô José Roque e os dos meus pais. Penso em vós em diversas ocasiões… Será que algum de vós “adivinhou” ou imaginou os meus caminhos e o meu destino? Procurei-vos ao longo de dois séculos, em diversos casais. Além de vós, tantos tios e tias, tantos primos e primas. Encontrei-me convosco, encontrei-me sem me encontrar… Terei vontade de ir mais longe… Parece-me que não. Apetece-me chorar, só de pensar em vós e em mim… Vivemos, sem compreender a vida…
Sentiu-se comovido, como é seu tom, não resistiu ao impacto. Fiquei abismada, parabéns!