Desta vez não estive presente mas, pelo que me contaram, a nossa freguesia viveu outra noite alta, a 6 de Abril, com o jantar anual do Clube de Caça e Pesca no salão da Junta. Noite de grande festa, temperada com óptimas comidas, boas águas e vinhos regionais de marcas famosas e excelente qualidade. Alegria a rodos, saída dos garrafões, das conversas e da música para todos os gostos e idades. Noite de salutar convívio que, como de costume, congregou centenas de pessoas das várias aldeias e de diversos pontos do país. Belos discursos, muito aplaudidos. Razões de sobra para felicitar o Presidente do Clube, o Senhor António Santos (grande caçador e tortulheiro), e a ilustre Presidente da autarquia, Drª. Celeste Rodrigues. Adianto mais uma ou outra nota, sempre em discurso indirecto. Não os contei, nem poderia fazê-lo, mas suponho que dos Calvos e das Teixugueiras foi um grande contingente de pescadores e caçadores, habituados a correr atrás ou à frente dos javalis e mais ainda a correr para onde houver “mesa posta” e animação garantida. Eu, que nestas coisas sou sempre o da dianteira, só faltei por me encontrar em Coimbra. Venham mais festas, boas festas, e contem comigo e contigo… Imagino que também faltaste, mas fiquei sem saber por onde terás andado. Assim mais difícil se torna acertar em que capítulo vai o “nosso romance…”.
Segundo ouvi dizer, conseguiste descobrir a minha aldeia mas pouco ou nada te demoraste. Não foste além da rua da lomba. Talvez para evitar falatórios se perguntasses por mim ou nos vissem juntos na eira ou na rua principal, à porta de casa ou a entrar para o “sobrado”. Foi pena, essa visita tão curta e secreta que nem deu para te ver e abraçar. Nem imagens no telemóvel. Vieste, mas passaste longe de tudo o que poderia ter acontecido. Talvez por isso, mais decidido fiquei em levar por diante aquela aventura já revelada de partir à descoberta da tua terra e do teu “país…”. Aventura agora menos arriscada porque já me enviaste boas notícias e informações. Só me falta o teu retrato… Sem ele receio desorientar-me, esquecer o teu nome, o teu olhar e o teu sorriso, confundir-te com outra mulher e perder-te de vez mesmo antes de te conhecer. Sem ele, temo que, ao perguntar por ti, os teus vizinhos soltem ameaças e me virem costas ou me indiquem a casa errada. Mesmo assim, chegue ou não chegue o retrato – que tanto resistes em enviar-me (quiçá por pudor ou desconfiança) -, em breve partirei à tua procura na esperança de encontrar-te e de me receberes calorosamente. Antes que as luas mudem, as papoilas e os rosmaninhos murchem e as fontes sequem. Não sei que cisma é esta, não sei o que me empurra para junto de ti. Tarde ou cedo – espero que mais cedo que tarde -, gostava de sentar-me a teu lado, na varanda da tua casa, ou deitar-me contigo nos teus aposentos mais íntimos e fechados… Quem sabe, talvez então me contes a tua história, a tua vida, e me deixes entrar nos teus segredos, nos teus silêncios e desejos. Enfim, passearmos nas margens da ribeira ou nas ruas da cidade.
Apressado pelo calor de Março e pela Piedade que tem os melhores canteiros, iniciei as sementeiras e as plantações na minha pequena horta. Logo vieram as chuvas – ainda bem, chuvas benfazejas – e o frio de Abril, bem escusado. Em caso de estragação – que parece certa -, terei que recomeçar de novo. Muitas pessoas não entendem este meu apego ao chão que consideram estranho ou impróprio de um “Doutor de Coimbra”… Pouco me importa que lhes pareça mal, porque eu sei e sinto que é bom mexer na terra e encantar-me com as “novidades” a germinar e a crescer. Promessas de verão e de mais dias nos dias que ninguém conhece. Na aldeia, igual ou melhor que isso só caminhar sem fim e ouvir as rolas e as cotovias. Por favor, agora que somos todos velhos, não tirem mais ninhos. Voemos antes nas lembranças boas da meninice. Já o poderia fazer, mas deixo para outra ocasião o “balanço” da “campanha dos tortulhos”. Por ora, direi apenas que este ano o cuco da ribeira demorou a chegar. Ouvi-o, pela primeira vez, no dia 31 de Março, quiçá para anunciar a mudança da hora… Mas depois calou-se por largos dias. Razão deve ter o Manuel quando garante que o cuco tardou por adivinhar o frio que este Abril trazia…
Todos gostamos e precisamos de elogios. Sobretudo se forem simples e verdadeiros. Sei que tenho leitores que apreciam bastante a minha escrita. Alguns tecem rasgados encómios à minha frente, mas nunca se deram à lembrança ou ao “incómodo” de manifestar publicamente o seu agrado. Por isso, mais me tocou o gesto de uma leitora desconhecida que teve a gentileza e a bondade de enaltecer e destacar as minhas crónicas, dedicando-me boas e generosas palavras num texto lindíssimo - publicado no “Reconquista” (de 4 de Abril) – a que deu um título bem sugestivo e apropriado: “Em nome das suas, das nossas origens”. Muito grato e comovido, aqui lhe deixo uma palavra de muita estima e admiração. Bem-haja D. Maria dos Santos, da Magueija. A sua terra, na nossa terra; a sua voz, nas nossas vozes...
Estiveste de novo em Paris e em Santiago de Compostela. Amanhã ou depois voltarás a outras universidades. Eu sempre por aqui e por ali, agarrado ao torrão natal ou nas ruas de Coimbra. Há tempos visitei o Rui – bom colega e grande amigo – internado nos Hospitais da Universidade. Pensativo e emocionado, desabafou: “Já aprendi mais sobre a vida nestes quinze dias de internamento do que em tantos anos na universidade…”. A certa altura, perdidos em conversas e boas recordações universitárias, acrescentou: “O Roque fez bem, tomou a opção certa ao inventar o seu Vale de Lobos…”. É assim o Rui, uma jóia de pessoa, a quem desejo boas e grandes melhoras. Não sei, nunca saberei, se fiz bem em regressar às minhas origens na ilusão de regressar à infância… Regresso, aliás, impossível porque as origens mais se apagam ou desaparecem. Diz-me, se souberes, quantas pessoas da nossa terra ainda se lembram do “Domingo de Ramos”, das procissões e dos sermões das “Endoenças”, das tigeladas, dos bolos adubados, dos “cartuchos” de amêndoas e dos namoros de antigamente… Ou das romarias de Maio, das feiras e das festas de Agosto. Nunca mais te direi: vem comigo a São Domingos ou à Senhora da Saúde... Ou à feira de São Jacinto. Alegrias e tristezas na alma e no pensamento. Talvez os meus olhos sorriam se me deres o teu retrato. Luzes e sombras nas cartas que escrevo ou invento. Contos velhinhos os meus, cartas de amor em segredo. Mensagens que só tu entendes...
João Lourenço Roque