Leitores: Barbaído. Serra do S. Brás

Joaquim P. de Matos - 22/08/2019 - 9:46

Em criança, enquanto guardava as ovelhas junto ao ribeiro de Vale Sande as águias e os corvos sobrevoavam as enormes escarpas rochosas que pendem nas encostas  íngremes da serra. 

Em criança, enquanto guardava as ovelhas junto ao ribeiro de Vale Sande as águias e os corvos sobrevoavam as enormes escarpas rochosas que pendem nas encostas  íngremes da serra. 

A meio da ladeira as pequenas nascentes apresentavam uma fina camada de óxidos coloridos e reluzentes.

Subir a serra torna-se tão difícil como ascender à santidade de S. Brás. 

Alcançar o planalto com 424 metros de altitude depara-se com uma panorâmica de 360º, vislumbrando-se a vários quilómetros as serras do Muradal, Guardunha e  da Cardosa, terras da Raia e as Portas de  Rodão.

No solo inculto salpicado de rochedos quartzíferos existe uma vegetação rasteira que esconde um passado histórico e religioso.

Durante as pesquisas sobre Juncal do Campo ao consultar o Dicionário Geográfico de Portugal, 1747, regista o seguinte: “ Serra pequena na Província da Beira, bispado da Guarda, Comarca de Castelo Branco, limites da freguesia de S. Bartrolomeu do Freixial do Campo. Chama-se esta serra de S. Brás, por haver nela uma ermida deste Santo. A altura não é demasiada, nem também o comprimento, uma coisa, e outra he mediana. É incapaz de cultura, por ser a maior parte vestida de um mato bravio, e maninho. Tem alguns casais habitados, e um lugar ou aldeia de maior conta, que habitam treze vizinhos, a que chamam o Barbaído. Descobrem-se no alto desta serra vestígios de que nela ouve antigamente algum género de fortaleza, mas são estes muitos escassos. Nela pastam, gado miúdo e grosso: traz alguma caça miuda, e rasteira, de coelhos, e perdizes. É de ares saudáveis, por ser lavada dos ventos.”

Perante esta recolha a curiosidade levou-me a subir ao alto da serra, em 1980,  onde constatei os vestígios do possível alicerce com pedras soltas à volta do planalto até ás rochas salientes e escarpadas que dariam continuidade à fortaleza.

As paredes da ermida, em ruínas, notava-se ainda uma construção quadrangular  e segundo relato dos mais antigos existia uma pia batismal no seu interior. Consta ainda que no princípio do século passado ainda ali se realizavam os festejos em  louvor do Santo.

Desconhece-se a época da fundação do templo, mas pela caraterística da arquitetura parece ser posterior aos outros vestigios que ali existem.

A poucos metros encontrava-se um amontoado de pedras de uma suposta edificação de maior porte.

Mais a sul havia pedras soltas que ainda indiciavam algumas das simples construções circulares.

Ao cimo da vertente, voltada a nascente, próximo do marco geodésico, recolhi fragmentos de “tegulae” romanas.

A iniciar o declive, da vertente sul, havia um sem número de pequenos fragmentos de rochas escuras a resvalarem pela encosta. Consta que teriam sido sujeitas ao fogo para extração de minério.

Perante tudo isto verifica-se que existiu ali uma comunidade empoleirada no alto da serra por ser ponto estratégico, tanto para a vigilância como para a defesa dos ataques inimigos.

O povo ou povos que ali viveram não estariam tão isolados do mundo em redor como se possa parecer. Certamente possuíam uma forte componente  religiosa e, por alguma razão escolheram S. Brás como padroeiro.

A população ao centrar a fé neste Santo é porque conhecia as lendas milagrosas. 

Relata-se que certo dia foi preso pelas tropas e, no caminho, uma mãe desesperada, parou a escolta e pediu a S. Brás para salvar o filho  por se ter  engasgado com uma espinha de peixe e não conseguia respirar.

Então o santo rezou para o alto, colocou a mão na garganta da criança e retirou a espinha.

Conta-se também que o Santo costumava meditar num monte onda vivia numa  caverna junto dos animais, com os leões e tigres que não lhe faziam mal.  

Mesmo vivendo na floresta as pessoas procuravam-no quando ficavam doentes a pedirem a cura para elas e para os seus animais.

Foi mártir, viveu na Arménia, sendo preso e degolado no ano 316 pelos romanos. Foi médico e pastor de almas e evangelizava com o seu testemunho, tornando-se patrono das doenças de garganta..

Presentemente os festejos em louvor de S. Brás do Barbaído realizam-se ainda no início do mês de fevereiro na localidade.

Na delimitação da Herdade da Cardosa com o termo de S. Vicente da Beira, em 1214, já aparece a designação de “Cabeço do Barbaído”.

A importância histórica desta região era tal que a aldeia de Barbaído, em 1873, passou a figurar no “Dicionário Portugal Antigo e Moderno” de Pinho Leal.  

Ao consultar esta obra transcreve-se o seguinte: “Barbaidon – antiga freguesia, que hoje não existe, na Beira Baixa, bispado da guarda. É a palavra árabe Barbaidon, composta de barr (campo) e baidon (destruído, arruínado). Significa pois campo arruínado”.

Com esta nota podemos deduzir que entre estes montes e vales travaram-se  verdadeiras lutas em tempos remotos.

Ainda nas proximidades da aldeia existe a “Buraca da Moura” com uma abertura normal para o tamanho de um adulto e dá acesso a vários compartimentos. Provávelmente teria sido uma importante exploração metalífera, servindo também de abrigo.

Também a poucos quilómetros da aldeia, há cerca de 15 anos, foi descoberta uma necrópole com três mil anos, com sepulturas da Idade do Bronze.

Relacionando todas estas notas podemos concluir que a vigilância estratégica  no altdo a serra do S. Brás, os vales férteis e a exploração de metais foram algumas das causas de verdadeiras lutas travadas em tempos remotos pelo interesse deste território que esconde um valioso património histórico  que não convém esquecer.

COMENTÁRIOS

Iris Afonso Pais
3 Dias atrás
Deixo um agradecimento ao jornal e ao escritor deste texto.
É muito gratificante conhecer um pouco mais da história da aldeia dos meus pais e avós.
Crsci na aldeia de Barbaído e aí fiz a instrução primária.
Já subi à Serra de S. Brás e passei pelas ruínas da capela com o mesmo nome.
Também cheguei a entrar na Buraca da Moura.
Existe naquele zona muito património histórico e cultural para explorar e conhecer!