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Salários em portugal: A desigualdade moderna

Luís Beato Nunes - 08/02/2018 - 9:38

Assiste-se há alguns anos a uma consolidação silenciosa de uma desigualdade salarial em Portugal que, para além de acentuar tensões sociais antigas, promove uma mais recente desconfiança geracional.

De facto, a diferença salarial entre os jovens managers de várias empresas e os que são responsáveis pela operacionalidade dos respectivos negócios, acaba por não ser muito bem compreendida por estes últimos, na maioria com vários anos de experiência no sector e na função.

Não defendo que a idade seja um posto independentemente da qualidade com um trabalho seja realizado, mas a experiência e a própria fidelidade à empresa mereceriam mais respeito pelas entidades empregadoras do que aquele que na maioria dos casos estas lhe atribuem.

Obviamente que os jovens que ocupam cargos de chefia terão algum valor acrescentado para as suas empresas, mas dificilmente se compreendem as diferenças salariais para os que acabam por ser a força motriz do negócio e, em muitos casos, a parte mais visível da economia.

É verdade que o mercado premeia quem é inovador e quem promove soluções empresariais mais eficientes em detrimento daqueles que apenas executam tarefas mecânica e rotineiras, mas estes últimos não podem simplesmente ser negligenciados no processo de inovação levado a cabo pelos primeiros.

Infelizmente, a desigualdade salarial e a consequente diferença de acesso aos mais variados serviços, como a educação, saúde, ou cultura, acabam por facilitar que uns sejam efectivamente negligenciados pelos outros com consequências sociais potencialmente nefastas a longo prazo.   

Apesar do recente aumento dos salários, em 2018 mais de 20% dos trabalhadores portugueses receberão o salário mínimo, fixando-se o rendimento médio de toda a população empregada em pouco mais de 700 euros por mês, incluindo vários milhares de profissionais com licenciaturas e mestrados.

Se o arrendamento de um quarto em Lisboa (e não um apartamento) se fixa, em média, entre os 400 e os 450 euros mensais, fica-se com uma ideia da insuficiência do salário médio nacional para muitas das despesas mensais de um jovem casal que queira constituir família, por exemplo.

Na verdade, Portugal é o país da UE onde a diferença entre o salário mínimo e o salário médio é mais reduzida, com as evidentes repercussões na capacidade de poupança das famílias, assim como de investimentos sociais a longo prazo, porque este simplesmente não existe no horizonte temporal da maioria das famílias portuguesas. Estas e muitas outras reflexões podem ser encontradas no livro recente de Francisco Louçã e Michael Ash, “Sombras” (2017), sobre “a desordem financeira na Era da Globalização”, o qual acaba por analisar maias em detalhe a debilidade do sistema financeiro mundial com algumas referências a Portugal.

Nesta obra os autores destacam as ligações promíscuas entre o poder político e o poder económico onde se enfatiza e elogia a ganância, presente em exemplos cinematográficos desde a década de 1980, como o célebre “Wall Street” (1987), sobretudo popular entre os mais jovens.

Para além das referências cinematográficas da década de 1980 que acabam por retratar circunstâncias reais, o livro destaca a ausência de transparência no universo da política e a sua dependência face a diversos interesses económicos não sufragados em eleições.  

 

luis.beato.nunes@gmail.com  

COMENTÁRIOS

Duarte Figueira
Na semana passada
Olá Luís, o teu artigo consegue falar por muitos de nós que vivemos no dia-a-dia estas realidades, e descreve as injustiças que muitos de nós sentimos em Portugal. Destaco o parágrafo "Infelizmente, a desigualdade salarial e a consequente diferença de acesso aos mais variados serviços, como a educação, saúde, ou cultura, acabam por facilitar que uns sejam efectivamente negligenciados pelos outros com consequências sociais potencialmente nefastas a longo prazo." A meu ver esta situação acaba por ser a causa primeira daquilo que eu chamo a perpetuação da pobreza em Portugal. Um Abraço, Duarte Figueira.