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Leitores: Águas conturbadas no Tejo…

José Gomes Torres* - 07/12/2017 - 9:30

As informações que todos os dias nos chegam sobre a catástrofe que se abateu sobre o nosso rio, revelam apenas uma grande incompetência de muitas áreas da sociedade.

Foto arquivo Reconquista

As informações que todos os dias nos chegam sobre a catástrofe que se abateu sobre o nosso rio, revelam apenas uma grande incompetência de muitas áreas da sociedade. Informação, desinformação e contrainformação, há para todos os gostos. Qualquer novidade que surja sobre o que se passa no Tejo nas últimas semanas, é motivo mais que suficiente para o comum dos cidadãos pensar desde logo, “o que será que vai sair agora…” Felizmente há exceções e quem saiba exatamente o que se passa no rio. São aqueles que todos os dias o frequentam, navegam, e dele tentam ainda teimosamente tirar o seu sustento. Esses conhecem-no de olhos fechados. Os sons, as pedras, os baixios e quem lhe faz mal. Conhecem as cores da água, os cheiros e os inimigos de cor. Não precisam de análises, de teorias, de nomes difíceis de pronunciar, de cursos superiores. Basta senti-lo apenas, como organismo vivo que é, ou deveria ser. São sistematicamente ignorados e os mais prejudicados. E ameaçados, também. 
E depois há os outros…Só para dar um exemplo, lemos o título “A poluição não matou os peixes”. Mas logo se percebe que afinal a poluição deu origem a um bloom de microalgas, que em decomposição produz uma hepatoxina, que também retira oxigénio da água, que afinal matou os peixes. De onde se conclui, a poluição matou mesmo os peixes. Porquê esta manobra de diversão?
É certo que nossos vizinhos, além de retirarem boa parte da água e de melhor qualidade, com o transvase Tejo-Segura, a pouca que permitem chegar a Portugal está já bastante poluída, disso só duvidam os mais distraídos. Entre outros motivos, graças aos 5 milhões de habitantes que vivem em Madrid, que despudoradamente despejam para o rio afluente Jarama, os seus esgotos domésticos, que por sua vez, vão desaguar ao Tejo e chegam até nós. A isto acrescentamos uma enorme quantidade de fosfatos, nitratos e amónios, provenientes das inúmeras agriculturas intensivas praticadas na bacia hidrográfica do país vizinho, que mais tarde ou mais cedo chegam ao Tejo também. E pronto, assim fica preparado o caldo fertilizante (entenda-se eutrofização do meio), que dará origem aos blooms de microalgas que lemos nas noticias. Mas não é apenas por isto que morrem os peixes. Há qualquer adicionada ao rio já em território nacional, que mata peixes. Na barragem de Cedillo/Monte Fidalgo não houve noticias de morte de peixes e a água é a mesma até Vila Velha de Ródão. Os baixos caudais liberados por Espanha este ano, potenciaram ainda mais a tragédia e milhares, senão milhões de peixes pagaram com a vida, a jusante de Vila Velha de Ródão. E já agora, não foram só alburnos, foram também carpas, achigãs, luciopercas e siluros e os super resistentes lagostins… No meu ponto de vista, nem interessa a espécie ou o motivo, o importante é que não podem morrer peixes diariamente durante meses, sem que nada aconteça! Claramente o Ministério do Ambiente e a APA não estão a fazer o seu trabalho, ao permitir que tudo isto continue a acontecer impunemente. Alguém a quem pagamos o ordenado com os nossos impostos, está a ser incompetente e complacente com toda esta tragédia. No mínimo, alguém deveria ter a coragem de informar a população se a água está ou não em condições para os banhos de verão, e o peixe para consumo humano. Trata-se de um caso de saúde publica, simplesmente. Se os peixes estão a morrer, poderão estar contaminados, não? Mas também podem estar contaminados e não morrer…
No entanto, uma coisa é certa: Só aparecerem peixes mortos, a jusante de Vila Velha de Ródão. Portanto, não vale a pena tapar o sol com uma peneira, porque esta é a realidade. Vale mais assumir a existência dos problemas e tentar resolvê-los, do que os desconsiderar. Além de mais, não se perde credibilidade e “fica-se melhor na fotografia”. Há claramente problemas por resolver. Não vale a pena anunciar novas ETAR´s, se os peixes continuam a morrer. Não vale a pena mandar retirar à pressa os peixes mortos, para o Ministro do Ambiente visitar o rio. Então afinal o homem viu o quê, se os peixes foram previamente recolhidos?
Todos sabemos que os empregos são importantes num interior desertificado. Mas não podemos prejudicar milhares para beneficiar centenas. Não temos o direito de deixar um rio morto aos nossos descendentes. O que é que eles irão pensar de nós? 
Curiosamente, na última semana o rio apresenta um caudal forte e completamente anormal, para uma época em que os dois países se encontram em seca extrema. Os nossos vizinhos espanhóis não dão tréguas agora, a mandar-nos água, sem razão aparente. Será que houve contactos a nível governamental e internacional, para que se fizesse uma barrela ao rio, enquanto se diluía melhor opinião pública e a carga efluente libertada?  Pessoalmente, que o atravesso quase diariamente há quase duas décadas, acho estranho, muito estranho, tanta água em período de seca…
Acredito que é possível o desenvolvimento económico em paralelo com a proteção da Natureza. Se nos outros países é possível, porque não no nosso? Esse será o futuro ideal, mas para atingir esse nível há que assumir que algo não está bem e procurar soluções. Fazer vista grossa à realidade não nos leva a resolver os problemas. Há que os enfrentar, para que sejam ultrapassados. Costumava dizer que daqui podem-nos levar as fábricas para outros países com mão de obra mais barata e encerrar serviços, mas a Natureza, as paisagens, o rio, o ar puro, ninguém nos podia levar. Mas neste verão aprendi que nos podem queimar a Natureza, pintar de negro a paisagem, encher de fumo o ar e também destruir o rio e matar os peixes… 


*Naturpesca – Guias de Pesca

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