Arquivo: Edição de 19-06-2008
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SECÇÃO: Opinião |
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A heróica geração da guerra de África. Uma modesta homenagem aos militares anónimos e aos combatentes que continuam a combater.19 de Junho de 2008 às 12:08hAo ler no jornal “Reconquista” de 21 de Maio p.p. um artigo que dava conta do trabalho que está a ser feito no domínio do levantamento das sequelas da Guerra Colonial, mormente sobre o estado de inclusão dos deficientes das Forças Armadas e em que o Coronel Lopes Dias tem desempenhado um papel relevante – Olá Manel Dias um grande abraço – gostaria de fazer uma breve reflexão sobre o tema das sequelas da guerra e também para recordar a heróica geração de soldados e milicianos, hoje já quase esquecidos, que deram o melhor das suas vidas, da sua integridade física e da sua saúde, em cumprimento de um dever patriótico e para defesa do que na altura se considerava como a integralidade da pátria. Bem sei que integralidade da pátria e que cumprimento de deveres patrióticos foram conceitos nem sempre devidamente utilizados, que estão agora ultrapassados, que, porventura e como alguns dirão, serão até reaccionários, mas também não é disso que hoje gostaria de escrever. Hoje gostaria de ser menos racional, hoje gostaria de sucumbir um pouco à emoção de algumas lembranças, de alguns sentimentos que sempre permanecerão em quem lá esteve. Vão já longe os tempos em que tirados das cidades, vilas e aldeias de Portugal – nessa altura o interior do país não era tão esquecido como agora – e metidos em barcos como gado, milhares de jovens portugueses (cerca de um milhão dizem as estatísticas) foram levados para as matas da Guiné, Angola e Moçambique. Sempre admirei a força, a coragem, a generosidade que caracterizava os nossos soldados a quem no final de cada mês eram dados um míseros escudos que mal chegavam para beber umas cervejas – quando as havia – e a forma obediente e estóica como acatavam as ordens que lhe dávamos, nós que tal como eles éramos mera carne para canhão, para combater um inimigo que nem nós sabíamos bem quem era, nem onde estava nem que mal nos tinha feito. Mesmo sem quase nada saber do que os esperava eles sabiam muito bem que os melhores anos da sua juventude iriam ser passados a calcorrear as matas inóspitas e longínquas de África, que iriam passar fome e sede, que às vezes iriam chorar, que alguns lá ficariam para sempre, mas eles foram. Foram apesar de terem perdido os empregos, os estudos, as romarias do Verão, as raparigas, o conforto das suas casas. Foram mesmo com a dor e saudade do afastamento das famílias, alguns deixando os próprios filhos. Foram mesmo sabendo que nunca mais seriam os mesmos e que as suas vidas nunca mais voltariam a ser o que eram. Eles não fugiram, eles não buscaram o comodismo e a glorificação de ser desertores para mais tarde serem recebidos em ombros, triunfantes, quais heróis requentados do Maio de 68, quando a política dominante mudasse. Eles nem sequer tiveram a glória de fazer o 25 de Abril porque já estavam fartos de guerra e, quando regressaram, nos barcos e aviões que os tinham levado, correram imediatamente para as suas vilas, aldeias e cidades a fim de retomar o que restava das suas vidas interrompidas havia mais de 2 longos anos. Não perderam nada porque nada tinham. Caíram de pé e foram, talvez, os únicos “perdedores” de uma guerra que nunca lhes disse respeito. Meninos feitos guerreiros com 21 ou 22 anos, armados até aos dentes, comandantes imaturos, fomos sem questionar, espartanos, aguentámos, deixámos lá o suor, o sangue e as lágrimas frescas da tenra idade que todos tínhamos. Mas, meu querido Manuel Dias, deixemo-nos de lamechices, apaguemos uma ou outra lágrima que teimosamente nos queira agora correr pela face, esqueçamos alguma raiva a que legitimamente temos direito, já que os tempos não estão para aí voltados. Agora é preciso cerrar os dentes, é preciso acção, é preciso que continue a haver combatentes que ainda combatem, é preciso fazer o que tu e outros estão a fazer, a trabalhar, a lutar para que os mais merecedores, os melhores de todos, onde vocês estão, não sejam esquecidos mais do que aquilo que têm sido, tenham algum reconhecimento, para que, ao menos, o seu sofrimento não tenha sido totalmente em vão e para que possa ser atenuado com a solidariedade dos camaradas que nunca abandonam os mais fracos nas trincheiras. Gostava de te dizer que tenho a certeza que quem lá esteve não pode, não deve, não consegue, ficar indiferente ao vosso trabalho, que não pode deixar de se sentir orgulhoso e solidário convosco. Mesmo que às vezes, mas só aparentemente, possa parecer alheio ou pareça que se esqueceu de tudo o que se passou. E quem lá esteve também não pode deixar de se indignar, mesmo que o faça silenciosamente, com a forma como a generalidade da classe política tem lidado com uma geração que, sem nada receber em troca e sem ser ouvida nem achada, sofreu e continua a sofrer apenas por ter nascido em Portugal. Mas hoje também não é dia para recriminações. Nem é dia para sucumbir à solidão nem a estes tempos tristes e cinzentos que vão correndo. Hoje, meu camarada, meu amigo, meu irmão, aproveitando a oportunidade que este óptimo jornal nos dá de nos aproximarmos um pouco mais e para recordar os verdes anos que vivemos juntos, quando éramos meninos ainda não guerreiros, só gostava de te mandar um abraço, de te dizer obrigado, de te bater uma grande continência dizendo “pronto” meu Coronel.
J. Silvério Mateus (Ex-combatente da guerra de África)
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