Leitores: Barragem do Barbaído. É imprescindível aumentar capacidade de reter água

João Carvalhinho - 11/07/2019 - 11:30

Nos dias que correm, há um crescente número de cidadãos consciente do estado de emergência climática que vivemos. A consciencialização e o reforço da perceção da população, para a gravidade daquele desafio existencial, são fulcrais.

João Carvalhinho

Nos dias que correm, há um crescente número de cidadãos consciente do estado de emergência climática que vivemos. A consciencialização e o reforço da perceção da população, para a gravidade daquele desafio existencial, são fulcrais.

Os alertas da comunidade científica sucedem-se e parecem ser mais eficazes – não há como a tormenta para lembrar Santa Bárbara! – mas não chegam.

A mobilização cívica e política para a urgência da situação está a conquistar audiências e apoios. As intervenções da miúda sueca, Greta Thunberg, são absolutamente inspiradoras. Aquele desassombro que nos desassossega! Que contraste com a intervenção vazia, insossa, de outras protagonistas, ambientalistas à la minute.

Mais que discursos de fraca retórica, a classe política deve aos cidadãos ação. Estamos claramente no âmbito do paradigma “pensar global, agir local”. São necessárias medidas que minimizem os impactes das alterações climáticas, e que favoreçam a adaptação das nossas condições de vida ao cenário climático que se aproxima, velozmente.

O concelho de Castelo Branco está particularmente vulnerável aos efeitos das alterações climáticas em curso.

Em Castelo Branco, nas próximas décadas, a precipitação média anual vai reduzir-se drasticamente, até menos um terço da chuva que nos beneficia hoje e que, em média, atinge ≈750 litros/m2/ano. As secas serão mais frequentes e os dias de chuva mais raros.

A temperatura média anual vai subir entre 2 e 5 °C e, nos outonos e nos verões, as temperaturas máximas poderão aumentar até 6 °C. Serão muito mais frequentes os dias e as noites muito quentes (+35 °C / + 20 °C), em ondas de calor intensas. Os invernos serão menos frios e as geadas tenderão a rarear.

Os fenómenos extremos, como chuvadas intensas e concentradas, tempestades de inverno com ventos fortes, secas severas, serão mais frequentes.

Aquelas alterações significam inevitáveis danos para a saúde das pessoas e para o estado dos ecossistemas, pelo aumento do risco de incêndio, pela diminuição da biodiversidade e pelas perdas de produção dos campos.

Assim, é imprescindível aumentar a capacidade de retenção de água. As barragens feitas no passado – Pisco e Santa Águeda – garantem água no presente mas são insuficientes para as necessidades futuras.

A albufeira do Pisco, com uma barragem construída no final da década de 1960 na Ribeira do Ramalhoso, ou Ribeirinha, tem uma superfície inundável de 19,8 ha e uma capacidade total de armazenamento de 1,4 milhões de m3 de água.

A albufeira de Santa Águeda, ou Marateca, com uma barragem concluída no início da década de 1990 no Rio Ocreza, tem uma superfície inundável de 634 ha e uma capacidade total de 37,2 milhões de m3 de água.

Para acautelar o futuro, Castelo Branco tem disponível uma solução, desenhada no tempo em que Joaquim Morão e José Sócrates tinham responsabilidades políticas executivas: a albufeira do Barbaído.

A ideia, apresentada inicialmente em 2002, prevê a construção de uma barragem na Ribeira do Tripeiro, próximo da aldeia do Barbaído, o “centro do Mundo”, com uma superfície inundável de 294 ha e uma capacidade total de 28,1 milhões de m3 de água. O projeto de execução, datado de 2008, estimou o custo da obra em 5,5 milhões de euros, incluindo a barragem, o acesso e as infraestruturas de exploração.

A albufeira do Barbaído garante uma reserva estratégica de água, para abastecimento público e rega, para as populações de Castelo Branco e dos concelhos vizinhos. Com esta barragem, a capacidade de armazenamento de água aumentará 73% face à capacidade acumulada nas 2 albufeiras públicas existentes no concelho.

O valor do investimento será maior hoje, até porque será necessário fazer a ligação ao sistema de abastecimento de Santa Águeda. Mas os benefícios são enormes e os impactes ambientais pouco relevantes. Ora, fazer a Barragem do Barbaído é uma opção inadiável.

Não existem obstáculos ou impedimentos à execução desta opção. No passado, as barragens do Pisco e de Santa Águeda foram financiadas pelo Estado e pelo Município. Hoje, fruto da gestão autárquica empreendida desde 1998, o Município de Castelo Branco não depende do Estado para financiar a obra.

O grupo municipal albicastrense dispõe de 102 milhões de euros em depósitos bancários, de acordo com as contas apresentadas na Assembleia Municipal no passado mês de junho. É um ativo que pouco valoriza atualmente. Ao contrário, a água tem um valor crescente.

Recordo que aquela reserva financeira se deve, em grande parte, à negociação liderada por Joaquim Morão para a integração do nosso sistema de abastecimento e tratamento de água num sistema multimunicipal. A reclamação de mérito a que se assistiu na citada sessão da Assembleia Municipal é imprópria.

Pelo que antecede, concluo que construir a barragem do Barbaído é investir no futuro, com elevados retornos socioeconómico e ambiental. É uma aplicação inteligente e útil dos recursos disponíveis, que contrasta com o efémero em voga.

Castelo Branco foi servido por pessoas que pensaram e prepararam o futuro. Os Albicastrenses merecem que a Câmara Municipal não lhes falte, agora. Por isso, proponho audácia e visão.

Construir a barragem do Barbaído é uma oportunidade única para preparar o futuro. Pois, ninguém compreenderá que não se tenha utilizado o dinheiro que enche os cofres, quando voltar a faltar a água.

 

joao.carvalhinho@sapo.pt

COMENTÁRIOS