Leitores: Portugal na Grande Guerra. O Desfile da Vitória

Maria Libânia Ferreira* - 12/07/2019 - 15:40

Quando, em agosto de 1914, a Europa entrou em guerra, todos pensaram que se trataria de um conflito curto no tempo e que não exigiria a mobilização de um grande contingente militar. Depressa se percebeu que não seria assim.

Quando, em agosto de 1914, a Europa entrou em guerra, todos pensaram que se trataria de um conflito curto no tempo e que não exigiria a mobilização de um grande contingente militar. Depressa se percebeu que não seria assim.

No início entraram na guerra um número relativamente reduzido de países, mas, nos anos seguintes, outros se lhes foram juntando, chegando a totalizar cerca de setenta. No final da guerra eram poucas as nações que se mantinham neutrais. Da mesma forma foram aumentando os efetivos mobilizados: aos 20 milhões iniciais, juntaram-se mais 50 milhões ao longo do tempo. O número de baixas foi impressionante: cerca de 10 milhões de mortos e 70 milhões de feridos. Se contabilizarmos a população civil, os números são ainda mais impressionantes.

Após quatro anos de conflito, a Alemanha aceitou um acordo com os Aliados, no qual as duas partes se comprometiam a por fim às hostilidades na Frente Ocidental. Começaram também as negociações para a libertação e repatriamento dos prisioneiros de guerra. Esse acordo, celebrado no dia 11 de Novembro de 1918, ficou conhecido por Armistício de Compiègne por ter sido assinado, a bordo de um comboio, perto desta cidade francesa.

No início de 1919, começaram as negociações da Conferência de Paz. Os pontos principais determinavam a desmilitarização da Alemanha, o pagamento de indemnizações para prejuízos de guerra e a restituição dos territórios ocupados.

Ao fim de seis meses de negociações, no dia 28 de junho de 1919, foi finalmente assinado o tratado que encerrou a Primeira Guerra Mundial. Chamaram-lhe Tratado de Versalhes por ter sido assinado nos arredores de Paris, no palácio com o mesmo nome. A Paz foi festejada em muitos países com desfiles pelas maiores praças e avenidas das principais cidades europeias, mas o mais lembrado é o Desfile da Vitória, em Paris.

Portugal tinha entrado no conflito logo em 1914 para defender os territórios de Angola e Moçambique, mas só em 1916, após declaração de guerra pela Alemanha, decide enviar topas para a Flandres. Esta decisão, que não foi consensual entre os vários partidos portugueses, também não foi do agrado dos ingleses, por acharem que as nossas tropas não estavam preparadas para entrar num conflito com aquelas características. Mesmo assim, os primeiros portugueses começaram a embarcar logo no início de 1917 e, apesar da falta de condições com que tiveram que lidar, bateram-se sempre com grande coragem.

Não foi devidamente reconhecido o valor da nossa participação, por isso, entre os Aliados, havia quem quisesse deixar-nos de fora das comemorações. Aceitar essa decisão era assumir o papel de menoridade que queriam atribuir-nos e, de certa forma, abdicar das indemnizações a que tínhamos direito. Perante a insistência dos portugueses, o Alto Comando Britânico acabou por aceitar as nossas pretensões e aceder a que participássemos nos desfiles de Paris, Londres e Bruxelas.

O Desfile da Vitória, em Paris, aconteceu no dia 14 de Julho, nos Campos Elísios, e era integrado por contingentes dos vários países que participaram na Guerra, com a França e a Inglaterra à frente. A representação portuguesa, integrada no destacamento inglês, era constituída por 150 homens, encabeçados pelo Comandante do Regimento de Infantaria nº 21, Major António Germano Guedes Ribeiro de Carvalho (tinha comandado o raid de 9 de março de 1918 em que participaram muitos sanvicentinos, cuja coragem e disciplina mereceu grandes louvores e condecorações) e pelo Capitão Bento Esteves Roma, do Regimento de Infantaria nº 13. O porta-bandeira foi o Tenente de Infantaria Perestrelo de Alarcão, do Regimento de Infantaria nº 22, de Portalegre. Consta-se que quem desfilou também, com a “Cruz de Guerra” ao peito, foi o Sargento Miliciano José da Silva Lobo, um dos sanvicentinos mais distinguidos por feitos heroicos na Grande Guerra.

Em Portugal também se celebrou o fim da Grande Guerra, com vários eventos, no dia 14 de julho de 1919. Em Lisboa realizou-se um desfile na Avenida da Liberdade onde participaram as Forças Armadas, a GNR, veteranos condecorados, inválidos, marinheiros, cadetes, escoteiros e membros da Instrução Militar Obrigatória. Ao longo da Avenida, muitos populares assistiram à Parada. No fim do dia houve também um recital no Teatro de São Carlos e fogo de artifício. Com estes festejos o governo via legitimada a participação de Portugal naquela guerra.

Uma nota interessante é o facto de, no desfile de Londres, no dia 19 de julho, ter estado o ex-rei de Portugal D. Manuel II e sua mulher Augusta Vitória, ao lado do rei Jorge V, que presidia à parada. Em Bruxelas, o desfile realizou-se no dia 22 de junho e integrava uma representação portuguesa comandada pelo Major de Infantaria André Brun; D. Manuel II assistiu também a este desfile, na Tribuna de Honra, ao lado do Rei Alberto da Bélgica.

*coautora do livro Os Combatentes de São Vicente da Beira na Grande Guerra

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