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Cata-Ventos: Pelas áreas do jardim

Costa Alves - 08/08/2024 - 17:23

Se visitar a exposição “Áleas do Jardim” presente no Museu Francisco Tavares Proença, fará uma viagem por um labirinto de significados com poemas de António Salvado (AS) e imagens de Rui Tomás Monteiro (RTM), inspirados no alegórico Jardim do Paço Episcopal de Castelo Branco. 
Abre-se com uma visão do Passadiço que une o Jardim à antiga Horta do Bispo. É um hino ao que une, ao que comunica falas da pedra bordada no pontão e nos arcos das suas curtas passagens. Ainda cá fora, frente ao portão, António Salvado (no único poema que tem mais de três versos) sintetiza o que nele vê: “Espelho de infinito:/ interior à luz/ reflectindo o além.// Gramática do mundo/ de sintaxe visível/ ao alcance do sonho.”
É uma exposição de intensa vegetação poética e imagética; como vibração de um desafio com três versos do poeta e a arte de tratamento fotográfico do designer. Ambos veem, leem, pensam, descobrem os âmagos que estão dentro das esculturas deste povoamento de história e simbolismo. Cada terceto de AS ressuma essências que a arte de RTM anota, filtrando aqui, acentuando ali. O real, a fotografia do real, primeiro ato desta criação, é o suporte inicial do que vai ser manejado para traduzir imageticamente o que a poética de António Salvado nela vê. É um trabalho a quatro mãos de dois pensamentos que se fundem para captar o espírito do objeto retratado com o espírito do lugar. Naveguemos por algumas das Áleas.
Água. O “Colorido da Água/ levando para o céu/ a ânsia d’infinito.” Repuxos a florescer numa auréola de azul esbatido, quase nevoeiro a subir azulando-se com o azul da serenidade imperturbável de uma atmosfera de infinito. Água dissolvendo-se no azul celeste de onde viera. “Original candura/ a água dos repuxos/ acenando ao azul” escreve António Salvado e Rui Tomás Monteiro como que hieroglifa no granito poderoso da pedra, anunciando as definições escultóricas que iremos testemunhar. “A pedra, a água, o verde/ ressuscitam sussurros/ nos sulcos da memória”.
“Moisés”: “Conduziu o seu povo/ até às terras onde/ a guerra continua…” A estátua enfrenta olhos nos olhos o tempo do tempo deixando a seus pés o que imagino, talvez mal, serem dez mandamentos. RTM esbate o azul do pódio com um ténue manto de névoa. Como quem diz: “a guerra continua”.
S. João Evangelista: “No seu Apocalipse:/ o clarão de d’Hiroxima,/ terror de Nagasaki.” Imagem também fortíssima de RTM sobre um João Evangelista torturado pelo clarão incinerador de um apocalipse gerado pela torpeza humana. 
Justiça: “Como encontrar ao centro/ um fiel de balança/ que não oscile, oscile…” RTM envolve a figuração humana de qualquer de nós a emergir solitária com uma névoa mitigadamente branco-azulada. Imagem a condizer com a interrogação do poeta.
Prudência: “E mesmo caminhando/ pela segura via,/ como evitar surpresas?”, pergunta António Salvado. Em auréola de azul ténue, entre terra e céu banhados pela névoa, Prudência como que levita concentrando a atenção no que a imagem tratada por RTM parece sinalizar uma lente empunhada por mão firme. A Prudência precisa de ver mais e melhor para “evitar surpresas”.
D. João IV. O designer tê-lo-á imaginado em fundo branco de (re)iniciador e coroou-lhe o peito com sombras que não sei se posso intuir serem cravos ilustrando o terceto do poeta: “Vaticinou os cravos/ que floriram em coro/ numa jovem manhã.”
Fusão íntima de pensamento e ação entre António Salvado e Rui Tomás Monteiro, entre poesia e design fotográfico. Simbiose de duas artes criando áleas entre as áleas deste interminável Jardim.

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