FAVAS CONTADAS. Ora aqui está uma frase que dá que pensar. Tomamo-la para assinalar um acontecimento, ou facto, dado como certo. Esta expressão provém do processo de eleição do abade em muitos mosteiros medievais, e mesmo posteriormente. Os monges, depois de reunidos em assembleia (“chamados a capítulo”) para cumprirem o seu dever de eleitores, procediam à escolha do abade mediante um sistema de votação de favas brancas (a favor do candidato) e favas pretas (contra). No final, contavam-se as favas e a branca era de bom augúrio. Alguns autores asseveram que este costume remonta à Grécia Antiga. Não sei quando as favas passaram a papéis depositados como coisa morta em caixas a que chamaram urnas.
Hoje, contadas as favas, já não apenas brancas e pretas, mas pendendo ainda, alternadamente, para sacos de duas cores, são “favas contadas” para os vencedores no nosso modelo de eleição e governação. O adagiário popular tem juízos inesperados sobre usos para as obter. Ora leia: “Falar a ponto e favas contadas”. O contrário do que vamos fazendo com muito falar e pouco (para) dizer. A fase que se segue aos (ditos) estados de graça é dominada por esta singular determinação: “Pelos teus favais regulas os mais”. Mas, atenção ao decorrer do tempo, pois pode acontecer que “favas me fartam, favas me matam”. Enfim, valha-nos isso; as favas contadas de hoje não duram sempre.
FAZER OUVIDOS DE MERCADOR. O mercador é quem compra para revender e compreende-se que não queira ouvir os valores que lhe propõem os potenciais compradores. Há autores a defender que a palavra mercador é uma corruptela de “marcador”, nome que se dava ao carrasco que, indiferente aos gritos de dor, “marcava” os ladrões com um ferro em brasa. No caso, fazer ouvidos de mercador era uma alusão à atitude do algoz, sempre surdo às súplicas das suas vítimas. Como é evidente, respeitava as ordens que vinham do alto.
A atualidade da expressão é manifesta. Também fingimos que não ouvimos; também nos fazemos desentendidos ou não queremos prestar atenção à prevenção da desgraça, da desigualdade, da injustiça, da pobreza. Fazemos orelhas moucas a palavras que não são loucas. Olhamos à nossa volta e, sobretudo, olhamos para cima, para quem tem mais poderes e deveres de ouvir e acaba por exibir as suas artes de mercador (ou “marcador”). Enfim sabedoria coletiva que vem do fundo dos tempos.
CEM QUILÓMETROS POR HORA e não “CEM QUILÓMETROS HORA”. Permitam que continue a acertar contas com a Comunicação Social. De um momento para o outro, as nossas televisões são tomadas por um surto epidémico e transformam (“aquilo que é”, como agora repetem e repetem) a velocidade de um corpo - distância percorrida por um corpo num determinado intervalo de tempo - numa frase ignorante que lhe retira sentido e, claro, rouba rigor ao que a Física nos diz e ensina. As escolas que o digam e oxalá se queixem.
A pressa, que os canais de televisão quase sempre exibem, redunda, neste e em muitos outros casos, em erro crasso. Erro crasso que nos foi revelado pelo triúnviro Crasso ao desprezar o saber romano acumulado escolhendo, desastradamente, um caminho estreito e de pouca visibilidade para, em vez de atacar o exército inimigo, ser cercado por ele. Aqui e agora, o erro crasso sai das televisões e propaga-se viroso por todos as latitudes do nosso falar.
Conclusão: escreva 100 km/h e pronuncie cem quilómetros por hora. Corrija a Comunicação Social!
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