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Debita Nostra CV

Luís Costa - 24/01/2019 - 10:43

… “o contexto existencial que se tornou conhecido como “sociedade de consumidores” distingue-se por um refazer das relações humanas, sob o padrão, e à semelhança, das relações entre consumidores e objetos de consumo. Esse feito notável foi alcançado com a anexação e colonização do espaço de interseção entre os indivíduos pelos mercados de consumo” …  (Tradução livre de Zygmunt Bauman, 2007, “Consuming Life”, pp.11).
Se é certo que, ao contrário dos erros humanos, a História se não repete, nem por isso a atual crise da democracia deixa de evocar outros tempos de muito triste memória. Talvez com uma importante diferença, a acrescentar à do seu caráter global: a apagada prestação das lideranças democráticas, perante a histriónica exuberância dos líderes populistas.
Ora, não creio que a abordagem deste tema, na sua complexidade, possa dispensar a análise de outras transformações por que têm vindo a passar as nossas sociedades. Nomeadamente a da sua conversão em “sociedade de consumidores”, tal como a caracteriza o sociólogo polaco Zigmunt Bauman.
As regras do “mercado de consumo” teriam vindo a impor um padrão de comportamento social decalcado, na procura de aceitabilidade, a partir dos imediatos desejos ou caprichos dos restantes cidadãos, enquanto consumidores.
A nossa natural vontade de inclusão, ou mesmo de visibilidade social, estariam assim dependentes da referência àquele padrão, pelo qual se foram confundindo as características de sujeito consumidor com as de objeto de consumo. Com significativas perdas, porém, em termos de criatividade e capacidade (poder) de produção.
Sob uma aparente liberdade de escolha o consumidor entra num circuito em só cabem (existem) as formas do imediato, do efémero, do curto e do veloz que normalizam a ansiedade e esconjuram o esforço.
A própria expressão pessoal decorre no tempo e no espaço que o consumo lhe reserva, formatados pelo modo tecnológico, pelo tamanho da mensagem credível e pelo tipo de ambiência que um algoritmo já delimitou. Num contexto em que não existe contraditório, porque o que há para ouvir já foi servido e o que haveria para dizer simplesmente se pinta, com as mais berrantes cores, como a deturpação e a maledicência, as que ainda garantem algum destaque e reconhecimento.
Bauman dá como exemplo a crescente descartabilidade nas relações interpessoais, cuja durabilidade e recompensas se foram sacrificando face à necessidade do correspondente empenho ou persistência. 
Mas que dizer também de uma cultura académica em que o inevitável esforço pelo conhecimento se foi concentrando em momentos próprios, como ritual obrigatório para acesso à credenciação, intercalando bem mais prazenteiras praxes?!
Ou, então, da ligeireza com que hoje, na vida e nas instituições políticas, se faz a formação e apropriação de sistemas de pensamento que, na sua produção, tanto trabalho deram a quem as precedeu?! 
E que terá tudo isto a ver com a debilidade das lideranças?

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