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A aposta no interior do país: Urge combater um longo esquecimento

Florentino Beirão - 03/11/2016 - 9:22

Enquanto aguardamos a aprovação do Orçamento do Estado para 2017 - uma continuidade de propósitos - vamos acreditar que o Governo da “geringonça” vai aprovar algumas das verbas para investir no interior do país, eternamente esquecido. É que, nos últimos tempos, temos visto o interior parado ou a andar para trás, nas suas múltiplas e justíssimas aspirações.
Se tivermos em conta que o Programa Nacional para a Coesão Territorial se encontra na agenda do Governo, a esperança de que algo de novo se concretize neste espaço esquecido da Nação, não pode ficar só pelas boas intenções.
Como é da nossa experiência, o interior do país encontra-se povoado de pessoas idosas, com ausência de crianças e jovens, sem oportunidade de empregos. A emigração tem sido a válvula de escape. Por outro lado, o litoral, como alternativa, vai-se tornando cada vez mais apetecível. Daqui tem resultado, manifestamente, um país assimétrico e desequilibrado. Para tal, o referido Programa Nacional, ao apostar na valorização dos recursos endógenos, prevê ainda estabelecer uma nova relação transfronteiriça bem como a reabertura de serviços “que fecharam nos últimos cinco anos”.
Encarado o interior como uma zona, onde, por várias razões, não vale a pena investir, os anos passam e o despovoamento vai-se acentuando, cada vez mais, com os concelhos do interior, de um modo geral, a perderem população e riqueza. Mesmo muitas das urgentes e valiosas infraestruturas, concretizadas no Portugal democrático, após o 25 de Abril, infelizmente, vão ficando às moscas ou pouco aproveitadas, entre outras razões, devido à falta de renovação das gerações. Onde tanto se morre e poucos bebés se veem nascer, o interior se não se afirmar pela positiva, impondo novas políticas bem estudadas e concretizadas, pode em breve, vir a fechar metade do país. Se percorrermos as nossas aldeias e os seus campos agrícolas, podemos constatar que, tanto as casas como os campos, se encontram repletos de cartazes a anunciarem a venda dos mesmos. Quando morre uma pessoa idosa, como os filhos se encontram ou no litoral ou no estrangeiro, a primeira opção dos familiares é colocarem tudo à venda. Daqui tem resultado um novo fenómeno - confirmado pelas imobiliárias - que consiste no seguinte: os estrangeiros, aproveitando algumas benesses do Governo, vão comprando os terrenos e as casas, para aqui se instalarem e gozarem as suas chorudas reformas.
Está mais que estudado. O país, durante largos anos, tem-se virado para o litoral, com maior ou menor intensidade. Demonstra-o a ocupação das áreas metropolitanas de Lisboa e Porto que perfazem 5% da área total do país. Aqui vivem 62% das pessoas em idade ativa e o tecido empresarial apresenta-se com quase 50%. Esta assimetria, segundo o referido estudo, “resultará do facto de terem sido sucessivamente implementadas políticas iguais de forma transversal ao todo nacional, tratando de forma igual o que é diferente”. Sendo assim, importa diversificar as políticas para responder, através das infraestruturas e equipamentos adequados, às necessidades das pessoas concretas que aqui vivem, descriminando positivamente quem mais longe se encontra dos serviços da Educação, da Justiça, da Saúde ou outros. Dentro desta linha, se encontram algumas medidas deste Programa Nacional que prevê para já, aproximar a Justiça dos cidadãos, reativando de 20 tribunais.
Como sabemos, nos últimos cinco anos, foram encerradas 1.808 escolas. Destas, 1.027 fecharam no interior. No mesmo período, encerraram 117 extensões de saúde, 50 das quais também no mesmo espaço nacional. Perante estes números, tudo o que se faça para os inverter merece o nosso aplauso. Combater o esquecimento destas terras é urgente tarefa. Os cidadãos que aqui vivem o merecem.
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