Na vida de uma família, tal como na vida de uma pessoa, há etapas que têm que ser percorridas. Sébastien Dupont, terapeuta da família e professor na Universidade de Estrasburgo, escreveu recentemente na revista Sciences Humaines, um artigo precisamente sobre o ciclo da vida familiar, procurando caracterizar os diferentes processos por que vai passando uma família, desde a saída de casa do jovem adulto até à aposentação e velhice. Centrar-me-ia na primeira etapa, aquela que o autor apelida de “Autonomização do jovem adulto”.
Se, ao princípio, os filhos passavam, quase sem transição, da casa dos pais, dependentes, para a vida de adulto casado e, não raramente, quase de imediato, à condição de pai ou mãe, assiste-se há já algum tempo, à emergência de uma nova fase. O prolongamento dos estudos e as dificuldades de acesso ao emprego originaram uma mudança profunda daquela situação. Além disso, os momentos que se consideravam determinantes para definir a entrada na vida adulta, isto é, a autonomia financeira, a saída da casa dos pais, o acesso à sexualidade, o eventual casamento, o primeiro filho, deixaram de o ser.
Há, por outro lado, situações que determinam que os pais permaneçam durante longos períodos de tempo na vida dos filhos (desemprego, separações conjugais…). Pais e filhos vêem-se confrontados com problemas nem sempre fáceis de resolver. Assim, os pais têm o direito de vigilância e de intervenção sobre os filhos pelo facto destes dependerem deles? Como conciliar o respeito pela autonomia de uma família, vivendo esta na casa dos pais de um dos cônjuges? Depois, há ainda a situação, infelizmente bem frequente, de pai ou mãe exercer uma influência tal nos filhos, tendo estes já constituído família, que os impede, ou torna difícil, o casal definir o rumo para a sua própria vida. São os conselhos constantes que lhes são dados, as sugestões que vão em sentido contrário da decisão que o jovem casal tinha tomado, enfim, um sem número de nadas, mas suficientes para promover a discórdia num lar. Estas situações tornam-se, ainda, mais gravosas se os filhos não foram educados para a autonomia. Eles têm que ter a capacidade de, não faltando ao respeito aos pais, não consentir que a interferência deles (por ciúme, perda de poder sobre os filhos…) seja sentida como uma ameaça à sua conjugalidade.
A autonomização tanto do adulto como da família não é tarefa fácil. Mas vale a pena tentá-la, nas várias frentes possíveis!