Não tenhais medo”, pedia o papa João Paulo II aos jovens, quando iniciou o seu longo pontificado. Ao proclamar esta mensagem, certamente, no seu íntimo, não deixaria de pensar, sobretudo, nos seus conterrâneos polacos, a lutarem pela sua libertação da tirania soviética, por longos e penosos anos.
O fenómeno do sentimento do medo humano foi estudado, em profundidade para a Europa, pelo conceituado historiador Jean Delumeau, no seu lúcido e profundo livro “O Medo no Ocidente”. Aqui se procura demonstrar como o Velho Continente sempre viveu, debaixo deste pesadelo, ao longo da sua história.
Se olharmos com atenção para os períodos mais marcantes de viragem das Civilizações, a perceção do medo entranhou-se de tal modo nos povos europeus que tiveram de aprender a sobreviver com ele, nos momentos mais críticos. Muitas vezes, com a ajuda esperançosa do sobrenatural.
Para não irmos mais longe, lembremos as invasões bárbaras dos povos de leste que se foram infiltrando e destruindo o majestoso Império Romano, ocupando mesmo a cidade de Roma, centro político de uma longa e poderosa Civilização. Muitos julgaram mesmo tratar-se do fim do mundo. Na realidade, era mesmo disso que se tratava para os povos invadidos. Só que, como sabemos, os povos vencedores acabariam por reconstruir uma nova Europa.
Desta realidade, como sabemos, nasceu a Civilização Cristã fundamentada nos ensinamentos de Santo Agostinho, quando sonhou com “A Cidade de Deus” na terra. Esta conceção acabaria por se enraizar em toda a Europa, até aos tempos modernos. Muitos dos seus valores foram ficando na vida dos povos, mas outros se perderam ou se vão transfigurando. Parecia que tudo corria bem numa Europa unida na mesma Fé, quando no séc. XIV, o flagelo do medo, de novo, surge com a Peste Negra que dizimou boa parte da população europeia. Assim nasceu a oração na Igreja: da “peste, da fome e da guerra, livrai-nos Senhor”.
Nos séc. XVI-XVII, tempos da Reforma Protestante e da Contra – Reforma católica, com as guerras religiosas mortíferas a marcarem um período sangrento, o medo foi invadindo todos os lares. A Inquisição que se lhe seguiu acabaria por potenciar ainda mais este sentimento de medo, alastrando-se a todo o mundo católico.
Nos tempos mais próximos, com a duas Grandes- Guerras mundiais a preencherem quase metade do século XX, o medo resultante da guerra, da peste e a fome, não se reduziram, mas alastraram pela maior parte do planeta. A expansão do medo começou assim a tornar-se um fenómeno cada vez mais universal. O mesmo sentimento por aí foi ficando com os tempos da “guerra-fria” que se lhe seguiu, até à queda do muro de Berlim (1961-1989).
Nos nossos dias, entre o medo e a esperança, vamos vivendo envolvidos num clima onde a insegurança e a imprevisibilidade - os grandes denominadores comuns - não só na Europa, mas num mundo global onde, para o bem e para o mal, nos é dado viver.
A insegurança, geradora de medo, apresenta-se agora nos irrequietos e sádicos jiadistas, nos fundamentalismos religiosos, na eterna guerra do médio-oriente, nos populismos a ganharem terreno na América do Norte, com a eleição de Trump. Mas também na Europa, com o “Brexit”, as últimas eleições do referendo na Itália, juntando-se ainda os imprevisíveis resultados das próximas eleições francesas. Acresce a tudo isto, grande invasão dos “novos europeus” a chegarem todos os dias às costas da Europa, oriundos de África e do médio-oriente. Será que esta vaga migratória que põe à prova a nossa tolerância e identidade cultural nos vai paralisar, com o medo deste novo fenómeno?
Num tempo de profunda viragem civilizacional, apenas sabemos que nada ficará como dantes. Tudo está em profunda mudança. A Esperança na Humanidade - uma boa prenda natalícia - será tudo o que nos resta, como nos ensina o mito da caixa de pandora. Esta é a condição humana. Feliz Natal para todos.
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