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A Direita e a Esquerda: O mercado da política

Luís Beato Nunes - 26/07/2018 - 8:30

A diferença geométrica entre “esquerda” e “direita” surgiu durante a Revolução Francesa de 1789 quando os membros da Assembleia Nacional se dividiam entre partidários do rei à direita do Presidente desta assembleia e simpatizantes da revolução à sua esquerda.
Quando a Assembleia Nacional foi substituída em 1791 por uma Assembleia Legislativa, composta inteiramente por novos membros, as divisões continuaram. Os progressistas sentavam-se do lado esquerdo, os moderados reuniram-se no centro, enquanto os conservadores se sentavam à direita.
Já em meados do século XIX esta geometria política acabou por se cristalizar, sendo de fácil uso para separar os “nossos” dos “outros”, os “bons” dos “maus”. Esta diferença persiste até aos dias de hoje, sobretudo na Europa continental, onde a influência política e cultural francesa mais se prolongou após o final conturbado do século XVIII.
Apesar da separação a regra e esquadro, a retórica que ambos os antípodas utilizam no seu quotidiano não é muito diferente, variando entre a lógica e o apelo à emotividade, utilizando sentimentos básicos, como o medo e a esperança.   
“Mais de um milhão de imigrantes chegaram à UE desde 2013. Se este fluxo continuar, nos próximos 5 anos a UE albergará mais de dois milhões de imigrantes, sobre os quais nada sabemos”, ou “Desde 2015 que a economia da UE cresce mais de 2% ano, se este crescimento se mantiver, em 5 anos teremos, pela primeira vez, uma situação de pleno emprego em toda a UE”.       
Em ambos os casos a dedução lógica não é verdadeira no presente, mas deixa o eleitorado a pensar nas consequências futuras (medo e esperança, respetivamente). Uma mistura entre dedução e imaginação que pode ser eficaz em passar uma determinada mensagem.
O medo é frequentemente utilizado nos discursos conservadores, porque a preservação do status quo e o receio da mudança assim o determinam, mas também é utilizado nos discursos progressistas, sobretudo para convencer o eleitorado de que os conservadores são tiranos ou potenciais tiranos e que, mais tarde ou mais cedo, abolirão todas as liberdades.
A esperança é comum nos discursos progressistas, mas deve ser acompanhada de exemplos tangíveis, porque, ao contrário do medo, é muito fácil perdê-la quando quem a apregoa permanentemente se contradiz no seu quotidiano.
O medo também se perde, sobretudo quando quem o utiliza como estratégia estabelece prazos muito específicos ou utiliza uma retórica demasiado agressiva e alegórica, como “o diabo vem aí”, uma vez que todo o efeito desejado se esvai num suspiro, quando o “diabo” não chega ou se atrasa.
A esperança não é exclusiva dos progressistas, aparecendo igualmente nos discursos políticos tendencialmente mais conservadores, muitas vezes associada a uma “nova ordem” por oposição ao desleixo do presente, ou ao regresso ao tempo em que tudo era melhor, os “bons velhos tempos”.
Através do medo ou da esperança, os agentes políticos atuam para as suas audiências, disfarçando os seus interesses pessoais e vendendo as ideias que mais facilmente lhes permitem continuar na órbita do poder, como se este fosse o fim da atividade política.
Mais do que retórica e visões binárias da realidade, a política deve, sobretudo, ser sinónimo de diálogo e compromisso com o intuito de promover soluções concretas para os mais diversos desafios da nossa vida colectiva.

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COMENTÁRIOS

Alan Gil
à muito tempo atrás
Muito bom texto!