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A idade do nosso descontentamento

Paula Custódio Reis - 27/08/2020 - 8:37

A Pandemia que veio revirar as nossas vidas, pôs a descoberto bolsas de pobreza, falta de profissionais, estruturas públicas deficitárias.

Mas também nos fez ver o pouco tempo que temos para dedicar às franjas da sociedade que são dependentes de cuidados, como é o caso dos menores ou dos idosos.
A distância e as ocupações dos filhos, levaram a que se encare como alternativa única a institucionalização dos nossos idosos.

E a grande procura por uma vaga, determinou a lotação in extremis das estruturas que os acolhem.

As vagas não são suficientes, as vagas comparticipadas então, estão muito longe das reais necessidades.

O Estado apela à solidariedade familiar para fazer face às despesas e conta com a iniciativa privada (com ou sem fins lucrativos) para criar resposta em parceria.
Nos meios rurais, os lares e centros de dia são, na grande maioria dos casos, os maiores empregadores das vilas e aldeias, onde pouco mais restou do que estes serviços.

Para quem conhece as tabelas remuneratórias aplicáveis ao setor sabe que os salários não são coincidentes com o trabalho exigido.

É a proximidade das relações humanas que dita que funcionários e direções não remuneradas continuem a dar o seu melhor.
São estruturas que nasceram sem profissionalização, às quais se foram acrescentando obrigatoriedades de formação e contratação de gente especializada.

Aqui, aprende-se muitas vezes a ver fazer.
Assim, foi num cenário de sobrelotação, de algum desconhecimento de procedimentos técnicos e de falta de profissionais que surgiu uma epidemia altamente contagiosa, e muitas vezes mortal, para quem já padece de outras patologias.

Por isso acredito que todos os profissionais e dirigentes destas instituições vivem sob o sobressalto de que esta situação lhes calhe em sorte.

Eu viveria em sobressalto se estivesse no lugar deles.
Parece-me que, como em muitas outras áreas, precisamos reorientar as nossas políticas.

Criar condições para que a institucionalização seja uma escolha e não uma obrigação.

Acompanhar devidamente as condições técnicas, financeiras e humanas das instituições para que elas estejam à altura de lidar com os imprevistos.

Fiscalizar e impedir a continuidade daqueles que não cumprem por dolo ou má gestão. 
O papel fundamental do Estado é cumprir e fazer cumprir.

É estar representado diretamente, ou por interposta pessoa, de forma a que os cidadãos não saiam prejudicados.
E os cidadãos que somos todos, ficamos mais pobres quando percebemos que, na fase da vida em que seremos mais vulneráveis, podemos não ter a garantia de que nos cuidarão com a dignidade que todo o ser humano merece. 
As infraestruturas são importantes.

As regras e sua aplicação são muito importantes.

Mas o egoísmo que dita que a sociedade pode dormir descansada porque um idoso tem uma cama, é um sinal gritante de que este não é o caminho correto porque, afinal, ninguém lhe fez chegar um copo de água que ele precisa para continuar a viver.

 

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