Aproveito a oportunidade deste início de ano letivo para escrever umas linhas sobre a minha primeira escola que acabou por ser um projeto inovador de um homem visionário que inspirou uma mudança profunda no ensino pré-escolar e básico em Portugal.
João de Deus foi poeta, deputado e pedagogo, tendo sido a sua obra poética mais famosa Flores do Campo (1868), mas foi, sobretudo, como pedagogo que o poeta acabou por se imortalizar.
Com efeito, em 1876, João de Deus envolveu-se nas campanhas de alfabetização, escrevendo a Cartilha Maternal, um novo método de ensino da leitura, que o haveria de distinguir como um dos principais pedagogos nacionais, emprestando o seu nome aos mais variados espaços públicos das nossas cidades.
Mas mais importante que as ruas, estátuas, jardins e museus que o imortalizaram, a principal homenagem a João de Deus foi a criação, em 1882, por iniciativa de Casimiro Freire (mecenas oriundo de Pedrógão Pequeno), da Associação de Escolas Móveis, as quais seguiram as orientações pedagógicas do autor da Cartilha Maternal até 1921.
Mais tarde, João de Deus Ramos, filho do poeta e pedagogo do século XIX, haveria de continuar a obra de seu pai durante o século passado, dando um novo impulso à Associação criada por Casimiro Freire e inaugurando o primeiro Jardim-Escola João de Deus, em Coimbra, junto ao jardim botânico desta cidade.
Atualmente a Associação de Jardins-Escolas João de Deus inclui o Museu João de Deus, a Escola Superior de Educação João de Deus, a Ludoteca, a Casa Rainha Santa Isabel e mais de 50 Jardins-Escolas, entre os quais o de Castelo Branco.
Passados estes anos todos, a Associação de Jardins-Escolas João de Deus continua fiel às aspirações culturais e pedagógicas de João de Deus, promovendo a emancipação de cidadãos desde tenra idade, sem os infantilizar, sem menosprezar as suas potenciais capacidades, mas igualmente sem lhes negar o direito a serem crianças.
Desde a sua fundação que centenas de milhares de crianças aprenderam a ler pela Cartilha Maternal nos vários Jardins-Escolas João de Deus, no meu caso no de Castelo Branco, onde para além de ler também comecei a aprender a respeitar o espaço e as vontades dos outros, por mais birras que isso me tivesse custado. Ora, entre as definições de “jardim”, todas têm em comum o facto de ser um espaço planeado, ao ar livre para cultivação… de plantas, ou de futuros membros de uma sociedade que se deseja sempre melhor.
E é precisamente isso que o Jardim-Escola João de Deus representa, um espaço onde as crianças aprendem a valorizar a sua liberdade, respeitando o bem-estar dos outros, num ambiente social diverso, em género e idade, que as prepara para o mundo. Um espaço onde Educadoras/Educadores e Professoras/Professores ajudam genuinamente as crianças do presente a perceberem que o futuro é por elas construído e que o caminho se faz caminhando, dependendo o destino dos passos que estiverem dispostas a dar.
Não há melhor palavra do que “jardim” para denominar o conceito inovador que João de Deus Ramos desenvolveu durante o século passado, sendo um espaço de cultivo, de aprendizagem, de brincadeira e birras, porque estas também fazem parte da nossa educação.
Obviamente que também tenho as minhas histórias de criança, já traídas pelos quase vinte e cinco anos que se seguiram à minha quarta classe, ficando algumas lembranças de brincadeiras épicas, de teimosias que hoje me envergonham e de uma enorme saudade.
Mas, enfim, as cumplicidades nunca se conseguirão disfarçar, as amizades ficarão para sempre, assim como o respeito e apreço por todos os Colaboradores, e isso diz muito sobre o Jardim-Escola João de Deus de Castelo Branco.
[email protected]