No passado fim-de-semana, Javier Solana, antigo Alto Representante para a Política Externa e de Segurança Comum da União Europeia, escreveu um artigo na plataforma online Project Syndicate onde destacava o surgimento de tendências nacionalistas e patrióticas adormecidas há algum tempo.
O artigo de Javier Solana é interessante, porque o autor coloca os EUA e a Administração Trump no epicentro destas novas tendências que distribuem culpas pelo resto do mundo ou pela globalização e que evocam um certo “interesse nacional” que, quase sempre, coincide com o dos principais grupos económicos nacionais.
Segundo Javier Solana, a globalização tem tido uma dimensão distributiva, gerando frustrações em determinados setores da população. A diminuição das desigualdades a nível mundial, sobretudo entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento, tem sido acompanhada pelo aumento das desigualdades no interior de cada país.
Em setembro, na Assembleia Geral das Nações Unidas, Trump não só se opôs abertamente à globalização, como incitou outros países a regressarem ao seu velho nacionalismo, isolacionismo e provincianismo, numa tentativa de disseminar esta sua visão do mundo a preto e branco por alguns membros da União Europeia (a Itália, a Hungria e a Polónia, por exemplo).
O orgulho em ter numa determinada nacionalidade e de partilhar uma certa cultura popular não são impeditivos de procurar soluções globais para problemas que têm, cada vez mais, uma dimensão mundial, como é o caso dos fluxos migratórios e das alterações climatéricas.
Os últimos anos estão a ser marcados por uma competição internacional (por oposição a uma cooperação) alimentada pela retórica excêntrica de Trump e por opções comerciais que se refletirão num crescente isolacionismo da que é atualmente a principal economia mundial.
A “guerra” comercial que os EUA iniciaram com a China e com a UE, apenas aproximou estes dois membros na Organização Mundial do Comércio e a diplomacia errática na Península da Coreia apenas demonstrou à Coreia do Sul e ao Japão que os EUA são um aliado pouco fiável.
No que se refere à diplomacia, é igualmente preocupante que Trump coloque o ênfase nas suas relações pessoais (de amizade ou inimizade) com os restantes líderes mundiais, como por exemplo fez com Kim Jong-un, da Coreia do Norte, com Jean-Claude Juncker, ou recentemente com o Presidente da China, Xi Jinping.
Para os espetadores parece que assistimos a uma interminável série de “Trump contra o resto do mundo”, uma versão hollywoodesca da geopolítica mundial, ou uma sequela da Marvel com super-heróis e vilões da política internacional.
Daqui a uns anos será curioso perceber como é que os princípios de negociação de um empresário do imobiliário, publicados sob o título “The Art of the Deal”, terão influenciado o mundo em que vivemos, reanimando ódios antigos ou, simplesmente, provocando o que de pior há na humanidade.
Há dias alguém escrevia que é apenas uma questão de tempo para que o que consideramos impossível no presente, se torne realidade no futuro, e, sem dúvida, que nos últimos anos muitos dos “impossíveis” começam já a ser uma realidade.
Em suma, um novo mundo de interesses nacionais parece cada vez mais impor-se à cooperação internacional, um mundo cujos países aparecem cada vez mais personificados nas excentricidades e tiques dos seus líderes.
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