Por este mês era prática, no meio rural, a matança (ou matação) do porco, aproveitando o tempo frio para trabalhar a carne sem que ela se estragasse. Daí ficaram práticas e conhecimentos que, a mim, particularmente, me ficaram para a vida. «Abre um porco e verás o teu corpo». Foi talvez a explicação mais prática que tive do que era um fígado ou um coração, por exemplo.
Esta semana, a propósito de uma prática que era tão comum por estas paragens, recebi comentários muito díspares como «que saudades», «fiquei com água na boca», «é uma pena já quase não se fazer isso». Uma entidade do ramo da hotelaria comentava que o fornecedor habitual de enchido tinha fechado e que o novo fornecedor trazia enchido com sabor industrial.
A saída das aldeias tem também estas consequências: perde-se o saber fazer. Perdem-se práticas e sabores. Abandonam-se as atividades secundárias de produção própria que contribuíam para complementar o orçamento familiar.
Mas também me falaram de uma expressão típica portuguesa, que é conhecida de muitas formas, mas que no fundo significa ou falta de coragem, ou falta de preparação ou adiar indefinido de uma situação: «Encher chouriços».
E a verdade é que arrastar situações só se justifica se, tendo por base um raciocínio isento e lógico, a solução a adotar precisar de tempo para maturar.
Normalmente, na área da gestão, este arrastar só cria mais problemas. O menor dos males é que haja a melhor solução possível, mesmo sabendo que não é a perfeita.
Uma não decisão, uma situação que não se define, cria entropias, faz perder credibilidade. Passa a existir uma «navegação à vista» que pontualmente resolve problemas, mas que, ao mesmo tempo, não arranja soluções de alavancagem verdadeira.
Há uma outra expressão que significa o mesmo: «estar a entreter». O problema é que quando o entretenimento acaba, surge o vazio de um silêncio muito pesado. O silêncio que significa que não se sabe o que se há-de dizer ou fazer a seguir.
Não adianta tentarmos dar novos nomes às coisas. Os «antigos» já tinham nomes para todas elas. O que nos falta é a coragem. A coragem de perceber o que está mal, de o dizer e de apontar soluções (e menos dedos).
Livros de bons ensinamentos para estas práticas? Os contos infantis. Aqueles que falam de cegonhas, de raposas, de tartarugas, de lebres e até de um rei que se apresentou nu na rua, porque ninguém teve a coragem de lhe dizer que estava a ser enganado por um costureiro manhoso e por uma série de pajens que só queriam continuar a sê-lo.