Há poucos dias, esteve reunido em Castelo Branco o primeiro - ministro António Costa com os ministros do seu Governo e deputados socialistas. Uma iniciativa que quis apresentar “um Governo mais próximo”, numa tentativa de conhecer melhor este distrito, através de visitas à maioria dos seus concelhos.
Deste modo, o Governo, por algumas horas, quis deixar o Terreiro do Paço e rumar até à Beira – Baixa, bem no interior esquecido do país, desde há muitos e dependente do poder central da capital. De qualquer modo, tratou-se de um significativo gesto louvável, para se tomar o pulso ao país real. Espera-se que esta iniciativa possa vir a dar alguns frutos no futuro, se forem cumpridas algumas promessas deixadas no final desta jornada.
Com um ano de mandato do Partido Socialista, com maioria absoluta, recheado de “casos e casinhos”, com entrada e saída de ministros e secretários - de - estado do Governo, foi criando uma imagem de instabilidade tal, que já se reflecte nas últimas sondagens, com a direita a crescer. O Governo, com este gesto de descentralização, tentou fugir ao ambiente pesado de Lisboa e aspirar o ar gélido e puro da Beira - Baixa que tempera e acicata os espíritos.
Deste modo, o primeiro-ministro pretendeu virar a página das polémicas e arrancar com novas iniciativas políticas, capazes de acalmar um pouco a oposição que tem estado em ebulição e aguerrida, suscitando constantemente, muitos temas polémicos.
Agora, António Costa respondeu com sua agenda política, trabalhando os temas da visita a Castelo Branco: o cadastro florestal, as portagens, a política agrícola, a habitação e a valorização do interior.
Temos pena que nem só uma palavra se ter ouvido sobre a revitalização das nossas aldeias pobres e desertas ou em vias de encerrar a sua secular vida, por falta de moradores.
A não ser a contínua vinda de estrangeiros para as nossas aldeias, quais novos povoadores, temporários ou mais persistentes, em inícios ou finais de vida, geralmente possuidores de uma boa cultura e cheios de ambição para dar vida às nossas aldeias, o interior já quase tinham fechado as suas portas. Na nossa região, como se constata, desde há décadas, já existem muitos estrangeiros instalados que vão dando alguma vida às pequenas aldeias: israelitas - judeus, holandeses, polacos, franceses e ingleses têm vindo a adquirir muitas das habitações desocupadas e vastas propriedades rurais, resgatando muitas das complicadas situações familiares, após o falecimento dos seus parentes. Muitos dos antigos habitantes das nossas aldeias, devido à emigração, nunca mais pensam em vir a viver para o interior, uma vez que já têm habitações adquiridas nas grandes cidades ou no estrangeiro. Deste modo, está a decorrer uma revolução silenciosa a qual, nos tempos mais próximos, não sabemos onde irá terminar.
É esta nova realidade que não vimos ser tratada devidamente, nesta descida do Governo ao interior do interior do país. Saberão os nossos governantes lidar com esta profunda mudança em que estamos envolvidos, com as nossas aldeias a mudar de mãos todos dias sem que nada se planeie para o futuro?
Uma imparável venda de habitações e hectares de terrenos que estão a passar das nossas mãos para a dos estrangeiros e que, certamente, jamais iremos recuperar.
Esta revolução silenciosa é tão lenta e escondida que não é notada pela maioria dos nossos gestores públicos que não têm dado a devida importância a este fenómeno migratório.
Neste momento, falta a coragem política e técnica para serem criadas novas centralidades rurais que poderão em rede, criar serviços, acesso à educação, promoção turística, bem como processos participados de desenvolvimento de comunidades.
Como sabemos, mais de 75% do nosso território tem densidade populacional abaixo da média nacional e já há municípios com menos de 10 habitantes por km2, ou seja 13% do território nacional.
Com a falta de planeamento atempado, vamos pagar caro o deslizar desta negra situação. Não podemos ficar de braços cruzados, à espera que as nossas aldeias que hoje estão a mudar de mãos, amanhã possam vir a cair no total controlo de novas gentes.
Como nos adverte Pedro Pedrosa, mestre em ordenamento do território: “Temos de olhar com seriedade para os desafios que um novo modelo de território rural apresenta, convocando os diversos sectores da sociedade e da administração pública a dar o seu contributo”.
florentinobeirao @hotmail.com