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António Costa eleito: O que ganham os portugueses?

Paula Custódio Reis - 04/07/2024 - 9:21

Em Junho de 2015 era notícia a hipótese de a Grécia ser expulsa da União Europeia e do Espaço Schengen. Estávamos numa época em que os países do Sul da Europa eram vistos como gastadores inconsequentes pelo que, negociar medidas no seio da UE era difícil e não se conseguia atingir o meio termo suficiente para assinar acordos.
A austeridade era a solução a aplicar sempre que um País derrapava nas contas públicas e pedia a intervenção do Fundo Monetário Internacional. Em Portugal, com a intervenção do FMI, vimos aumentar o desemprego, diminuir salários, reformas e direitos, aumentar impostos. Fizemos o papel de bom aluno e fomos além do que era pedido. O investimento empresarial não cresceu exponencialmente e as famílias passaram a viver pior. O remédio não dava melhorias.
Em outubro desse ano, nas eleições legislativas, dei por mim surpreendida pelos resultados das eleições. Como é que os eleitores não queriam tentar outro caminho que não o da austeridade? Ao ser o timoneiro de uma solução governativa que nunca tinha acontecido no País, António Costa leu a necessidade de que fossem feitas reformas que melhorassem a vida económica do País e das famílias, sem pôr em causa as contas públicas. Estava em causa a confiança dos eleitores e do sistema económico.
Do resumo de oito anos de governação, aconteceu a quadratura do círculo, o «milagre económico português» como o designou Krugman, Prémio Nobel da Economia: “Tive longas conversas com o meu amigo Oliver Blanchard, o antigo economista-chefe do Fundo Monetário Internacional e ele diz: Não percebo como é que Portugal se saiu tão bem. Como é que eles fizeram isso?”, contou ao jornal. A sua explicação passa pelo turismo e pelo crescimento das exportações, mas no geral indicou que “é um pouco misterioso” como tudo aconteceu.»
António Costa foi eleito pelos líderes europeus para, a partir de dezembro de 2024, presidir ao Conselho Europeu. Os comentários sucederam-se e vão do «orgulho português» à «estrela da sorte» de António Costa, passando por inúmeras teorias da conspiração que apontam como propositada a queda de um governo eleito por maioria absoluta.
A verdade é que não é lógico pensar que os líderes eleitos nos países da UE votariam em alguém se não acreditassem que este tem as características para ser o mediador entre eles, conciliando, influenciando e mostrando saídas (pouco óbvias muitas vezes), capaz de ler os cenários atuais interligando-os com aqueles que são os interesses de continuar a garantir que viveremos com a tranquilidade possível, num cenário mundial de guerras, crises humanitárias, movimentos extremistas eleitos, cenários inventados pelas redes sociais.
António Costa vai desempenhar esta função sendo representante de todos os europeus, mas não deixando de saber o que é ser um europeu do sul mediterrânico. Esse é o ganho dos portugueses.
O ganho dos europeus é a visão de um estadista, que tem da economia a perspetiva de que ela deve ter uma base de missão e não de capitalismo exclusivamente.
O ganho de António Costa não é o de um papel semelhante a fim de carreira tranquilo. No cenário de diferenças de uma UE cada vez mais alargada em países e regimes, de reorientação dos orçamentos nacionais para que seja possível o re-armamento de todos e a ajuda prioritária aos países que venham a entrar, prevê-se que seja cada vez mais difícil alcançar consensos.
Ao contrário de António Guterres que assume abertamente a sua crença religiosa, António Costa confessa-se agnóstico. No entanto, parece que a satisfação com o desempenho de uma função que parece pouco fácil pode ser explicada pela resposta dada pelo secretário-geral das Nações Unidas aquando da sua candidatura: «por causa da Parábola dos Talentos».
Esperemos que as agendas se conciliem, que os consensos aconteçam e que os talentos sejam exercidos, para que a União Europeia como construção de um ideal de paz e de prosperidade seja uma realidade para os europeus e para os povos que nela procuram abrigo.

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