Nasci em 1975, no Hospital de uma Misericórdia, que a minha mãe descreve como escuro, velho e assustador.
Lembro-me de viver sem luz elétrica, de instalarem o saneamento básico na minha rua, da reunião de vizinhos com um funcionário do Estado para escolher o nome dessa mesma rua.
Até aos anos oitenta, ali moravam mulheres, crianças e homens reformados. Os homens estavam emigrados desde os anos sessenta, depois de terem cumprido o serviço militar ao serviço de uma guerra que não compreendiam e que, até ao fim dos seus dias, lhes deu noites em claro.
O percurso escolar foi avançando, à medida que cresciam as oportunidades de uma menina nascida numa aldeia da Beira Baixa, poder frequentar os vários níveis de ensino. Ninguém, dos noventa alunos que tinha a minha escola primária, ousaria levantar os olhos e sonhar com ensino superior.
Concluída o ensino superior e com meia dúzia de anos vividos em Lisboa, decidi que queria voltar. Tive acesso a um crédito bonificado para ajudar a pagar o empréstimo da minha casa, comecei a trabalhar num Instituto Público, que sirvo com orgulho há mais de duas décadas, candidatei-me e fui eleita presidente na aldeia da minha vida, numa idade pouco provável e que também foi uma escola de vida.
Entretanto, os meus filhos nasceram numa unidade do SNS. Hoje frequentam a escola pública, praticam desporto em clubes associativos, ouvem em casa sobre o privilégio que isso é (sim, sou das mães que ainda lembram o privilégio de ter comida na mesa).
O meu percurso de vida é igual a tantos outros dos meninos nascidos depois do tempo de Ditadura em Portugal. Percursos que só foram possíveis porque a Democracia melhorou as condições de vida, criou sonhos e possibilidades, abriu-nos o Mundo.
Em alternância de poder democrático, os partidos construiram uma sociedade que diminuiu o analfabetismo, aumentou a esperança de vida, criou sistemas de previdência para as situações de carência, desemprego, velhice e doença.
Quando oiço alguém dizer que no outro tempo se vivia melhor, tento perceber se essa pessoa efetivamente teria essa vida melhor que apregoa. A verdade é que, para uma pequeníssima minoria isso seria verdade. Para a imensa maioria que somos todos nós, os outros, tento ouvir os argumentos e perceber de onde vêm. Se não há argumentos, apenas há palavras repetidas e banalidades, faço um esforço para deixar de ouvir.
O novo regime que o líder de um partido não democrático mas eleito em democracia, diz querer em triplo, acredita no prémio do mérito acessível a poucos, na iniciativa privada como primeira escolha, num país de gente pobre e com medo, agradecido com alguma migalha que lhe é dada. Os seus financiadores, aqueles que verdadeiramente mandam, querem uma classe trabalhadora com muito menos direitos e oportunidades, ao mesmo tempo que apregoa as maravilhas dos serviços privados em detrimento dos públicos.
Nas notícias e na vida real de todos os dias, assisto ao início da falta de resposta de sistemas privados, que só eram muito bons quando deles usufruía uma minoria.
Ontem ouvia um senhor zangado porque o seguro não cobria um exame médico, enquanto pensava que as letras pequeninas continuam a não ser lidas. Encolhi os ombros quando me explicaram que me vão aplicar uma única anestesia para dois exames, mas que é cobrada como duas e, portanto vou ter de pagar a anestesia inexistente.
A sério que acreditam mesmo que esta gente vai ter preocupações com todos? Que vão ser mais honestos e cumpridores dos seus papéis? Que não vão usar o Orçamento do Estado para financiar um sistema que não dá resposta ao cidadão comum?
Acho que é desta que começo a arregimentar amigos para instaurar a República Independente da Gardunha...
Gostei imenso do seu artigo.
Eu voto para a independência da Gardunha.