No passado dia oito, as eleições americanas colocaram o republicano Donald Trump na Casa Branca, como 45º Presidente da USA, agora dividida ao meio, após uma campanha eleitoral das mais renhidas, mas de fraca substância, disputada com a democrata Hillary Clinton que, apesar de ter somado mais votos, não foi eleita, devido ao sistema eleitoral.
Enganaram-se os comentadores oficiais, as contínuas sondagens e os media em geral que contribuíram para criar uma imagem de Trump, como uma pessoa que sabe divertir as multidões, através da televisão. Para muitos, o inesperado e indesejável acabou por acontecer no país mais poderoso do mundo, no bem e no mal, lanterna da nossa civilização ocidental. Com a sua entrada na II Guerra- Mundial, derrotando o nazismo, permitiu estes longos anos de paz e de prosperidade aos europeus, nomeadamente com o generoso Plano Marshal. Muito tem sido indagado acerca das múltiplas e complexas razões desta vitória, surpreendente para muitos. A má escolha da candidata democrática Hillary, muito desgastada pelos anos que gravitou à volta do poder político e financeiro. O facto de não se ter prestado atenção às zonas e às pessoas esmagadas pela globalização que interligou o mundo, gerando elevado desemprego, como aconteceu com os mineiros do carvão, os trabalhadores da indústria automóvel que vivem ou vegetam nos estados do “cinturão da ferrugem” e tantos outros deserdados, que através do seu voto quiseram gritar contra um sistema que os tem marginalizado da sociedade do bem - estar.
Acresce ainda que a campanha eleitoral muito formal dos democratas, sem chispa de criatividade e muito pouco aguerrida, combinada com a falta de uma estratégia que protegesse os descontentes, ditaram a sua sorte. Por um lado, ter-se-á desprezado o poder das multidões entusiastas nos comícios do bilionário Trump, um empresário de sucesso, mas com pés de barro, pelo seu atribulado passado. Um extremista de direita sem experiência política que soube sabiamente capturar a raiva dos americanos zangados com o poder dos democratas.
Por outro lado, a democrata Hillary não terá sabido explorar os pontos fracos de Trump que se gabou de ter abusado sexualmente de mulheres e que mentia descaradamente. Os seus comentários misóginos, racistas e anti-semitas contra os emigrantes, o descaramento em declarar ter fugido aos impostos, fazem desta personalidade política um ser imprevisível e assustador para muitos. As frequentes manifestações nas principais cidades dos Estados Unidos que têm decorrido todos dias contra a eleição do republicano, podem querer dizer-nos que algo anda no ar e ao qual devemos estar atentos.
Quanto a nós europeus, não podemos ficar muito descansados pelas políticas que Trump propõe, nomeadamente para o futuro da NATO e para os acordos comerciais bilaterais. Com as suas prováveis ligações a Putin, à extrema - direita francesa e outros que tais, o mundo começa a ficar perigoso, com alguns laivos fascistas, de pendor populista e nacionalista exacerbado. Com o “Brexit”, os muros da Hungria e de outros países da UE, com os governos de direita a fecharem as portas aos refugiados, o ambiente começa a aquecer, pelas piores razões. Junte-se a tudo isto a questão do Médio-Oriente em chamas, e teremos motivos mais que suficientes para nos encontrarmos preocupados com a globalização do medo, e da imprevisibilidade dos nossos dias.
Sendo tudo tão imprevisível, refere a maior parte dos comentadores, não se vislumbra ainda no que esta nova experiência poderá resultar. Obama referiu-se a ela como uma oportunidade e Hillary seguiu-lhe os passos, numa atitude muito digna.
Sabendo nós que o novo Presidente eleito sempre fez parte da ordem estabelecida, dos que mandam na economia da USA, oportunista e velho amigo dos Clinton, começa já a esquecer algumas promessas mais radicais, com um discurso mais moderado, após as eleições, pode ser provável que muito do que disse e prometeu seja deitado às urtigas. Oxalá, para bem da humanidade. “Vamos manter a esperança”, pois neste momento, quando ainda tudo permanece incógnito. Na verdade o que por vezes parece ser impossível ou irrealista, transforma-se em comédia ou tragédia. Com uma democracia tão doente no Ocidente, fica o aviso destas eleições.