No passado domingo realizou-se a primeira volta das presidenciais no Brasil, elegendo-se igualmente um novo Congresso de Deputados e os governadores dos estados, tendo os ecos da campanha chegado um pouco a todo o mundo lusófono.
Entre difamações, violência física contra os candidatos, afirmações saudosistas sobre a ditadura militar e os inúmeros casos de corrupção, a campanha política no Brasil foi um espetáculo surreal para a maioria dos estrangeiros.
Talvez com a exceção dos EUA, onde as campanhas políticas também vivem de insinuações, concentrando-se em detalhes da vida privada dos candidatos, o ato eleitoral do passado domingo no Brasil, foi precedido de uma campanha que mais parecia um entretenimento cinematográfico.
O marketing comercial mais agressivo tornou-se no principal aliado dos candidatos, ditando discursos inflamados contra as minorias, apresentando um conjunto de ideias desligadas sobre os mais diversos serviços públicos e trazendo para a praça pública a vida privada.
Ao mesmo tempo, a dimensão impressionante da corrupção no Brasil que acabou por minar qualquer tentativa construtiva de pensar o futuro do sistema judicial, serviu de argumento para alguns candidatos defenderem o regresso à ditadura militar.
Esta campanha atípica aos olhos de vários estrangeiros até pode ser um espetáculo divertido de acompanhar, mas é, ao mesmo tempo, um espetáculo que impactará não só a vida de milhões de brasileiros, mas o próprio mundo lusófono.
Depois de um período de relativa expansão económica, desde 2013 que o Brasil tem atravessado um período de recessão e estagnação, aliado à evidente instabilidade política que levou à destituição da Presidente Dilma Rousseff em 2016 e às relações tensas entre o poder político e judicial, sobretudo devido à Operação Lava-Jato.
Este clima de profunda desconfiança nos políticos e nos próprios juízes poderá ter precipitado esta campanha onde candidatos negaram os abusos cometidos pelo Estado durante a época da ditadura militar (1964-1985).
Mais do que a negação, o candidato mais votado nesta primeira volta foi mais longe ao defender que “o grande erro” dos militares foi “torturar e não matar” os opositores. O mesmo candidato utilizou uma retórica de ódio inaudita contra as minorias.
Infelizmente, este tipo de discursos acaba por seduzir uma percentagem relevante da população brasileira, cansada da corrupção e da instabilidade económica e política dos últimos anos. Segundo um estudo do Instituto Pew, 23% dos brasileiros em 2017 apoiava um sistema “não democrático”. A situação dos últimos anos no Brasil parece ter levado um crescente número de cidadãos a defender uma “a ordem” a qualquer custo.
Contudo, poucas vezes uma “ordem” a qualquer custo é sinónimo de “progresso” e mesmo este último é um conceito relativo e facilmente manipulado pela retórica e pelos agentes políticos.
A “ordem e progresso” que os brasileiros aspiram, ao ponto de ser o lema federal do país, inscrito na própria bandeira, parece difícil de alcançar quando se lêem as recentes notícias vindas do outro lado do Atlântico.
Depois de perseguido e horrorizado com o que se passava na Europa da primeira metade do século XX, em 1941 Stefan Zweig escreveu o livro “Brasil, País do Futuro”, mas, ironicamente, o futuro deste país parece constantemente adiado.
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