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As longas férias escolares: Para além do telemóvel e do computador

Florentino Beirão - 28/07/2016 - 10:38

Vivemos num país pobre que consegue oferecer aos seus alunos uma das maiores férias escolares da Europa. Só no Verão, do início de Junho a meados de Setembro. Bem contadas, juntando Natal, Carnaval e Páscoa, são cerca de nove semanas, com vários meses sem horários, ausência de trabalhos de casa, sem livros debaixo do braço ou mochila a tiracolo. 
 As consequências desta longa paragem, para pais e avós, todos as conhecem. Onde entregar a criança, durante estes vários meses? Como ocupa-las, ao longo do dia? Como evitar que este período estival não seja perniciosos para o desenvolvimento dos jovens, mas, pelo contrário, um enriquecimento físico e mental. Como arranca-los do sofá onde permanecem horas sem fim, de rato na mão? Como descobrir várias atividades para ocuparem estes longos dias, para além do telemóvel e do computador?
Se olharmos à nossa volta, um ou dois telemóveis nas mãos são as amizades mais frequentes dos jovens e até já das crianças. Eles servem para tudo. Jogos, mensagens, internet, notícias dos jornais, o estado do tempo, localização no espaço, namoro, chamamento dos amigos à praça pública, e até fazer ou travar revoluções militares. A Turquia demonstrou-nos bem esta complexa e nova realidade social e política.
Omnipresente, a internet tornou-se um hábito tão arreigado que começou a fazer parte substancial das nossas vidas. Com este tempo de prolongadas férias, ainda se torna mais viciante esta atividade comunicacional.
 Se bem repararmos, cada vez há menos crianças a brincarem na rua e nos parques infantis. Encerrados em casa, à volta do telemóvel e do computador - e pasme-se, agora com o sucesso da caça ao Pokémon da nintendo - o mundo interpessoal torna-se cada vez mais exíguo. O nosso próximo, cada vez mais, se encontra longe de nós. As relações humanas manifestam-se cada vez mais frias e virtuais. Segundo um recente estudo europeu sobre o uso excessivo de smartphones, entre crianças e jovens portugueses, dos nove aos 16 anos, concluiu-se que 60% dos inquiridos sentiam uma contínua necessidade de verificarem o seu telemóvel “para ver se alguma coisa tinha acontecido”.   
Não será por acaso, que a primeira busca que a polícia fez aos criminosos – seja em Nice ou em Berlim – foi procurar os seus telemóveis e computadores. De um modo geral, encontra-se lá tudo. Dos preparativos dos crimes, ao momento e ao local dos ataques assassinos. A nossa história começa agora a ser contada não pelos nossos amigos e familiares, mas pelos meios tecnológicos que nos acompanham, diariamente. Dia e noite.
Face a esta complexa e multifacetada realidade, muitos educadores e investigadores se interrogam sobre o melhor modo dos alunos ocuparem os seus longos meses de férias.
Assim, para Jorge Ascensão, presidente da CNAP, “a escola seria uma espécie de supervisora das respostas a esta problemática, a serem organizadas pelas autarquias associações, instituições da comunidade, outras escolas, com quem podiam estabelecer programas de intercâmbio entre alunos”.
Tudo isto para se evitar, segundo Mário Cordeiro, que as crianças “estejam a olhar para as moscas”, aborrecidas, a maçarem os adultos ou a sentir que não há nada para fazer, é que os levará para os braços de atividades apelativas, mas massivas, como a televisão, os computadores, as consolas, a dar cabo do seu sistema nervoso central”. Por sua vez, a pedopsiquiatra Ana Vasconcelos, para evitar a total dependência das crianças dos novos meios tecnológicos, sublinha que cabe aos pais e aos educadores definirem uma hora do dia para as crianças se dedicarem aos seus contactos virtuais. Mas o mais importante, acrescenta a especialista, é que deve haver momentos em que a família se encontra toda junta em férias, sem relógio, sem stress, com atividades ao ar livre. Retirar as crianças das rotinas do ano escolar, oferendo-lhes alternativas educativas enriquecedoras, será o grande desafio.   Boas férias para todos. 

COMENTÁRIOS

Joca
à muito tempo atrás
No meu tempo havia muito mais férias do que actualmente e os alunos eram melhor preparados do que agora, apesar das aparências e das declarações em contrário dos actuais "pedadogos". As aulas começavam a 7 de Outubro, havia férias de Natal de 18 de Dezembro a 2 de Janeiro, uns 5 dias de férias do Carnaval, uns 15 dias de férias da Páscoa e umas deliciosas férias de Verão de 20 de Junho a 6 de Outubro. Havia aulas só de manhã ou só de tarde, e estudavam e divertiam-se muito mais do que agora. Nessa época não havia computadores, nem internet, nem telemóveis e fazia-se muita vida ao ar livre, passeava-se, ia-se à praia, ao cinema, lia-se muito, namorava-se. A actual vida moderna é bastante triste em comparação, mas nada que não tenha remédio.