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Biblioteca de C. Branco: A devolução do espólio de Jaime Lopes Dias

Ana Maria Lopes Dias Manarte/ Lucas Manarte - 05/06/2025 - 9:00

No final de 2024, manifestámos neste jornal o nosso repúdio à alteração do nome da biblioteca municipal de Castelo Branco, pelo que significava de hostilidade gratuita para com o homem a quem foi anteriormente concedida essa homenagem, o Dr. Jaime Lopes Dias. Sem questionar a vontade da edilidade em homenagear outras figuras de Castelo Branco, tema que não é sequer relevante para este assunto, deixámos nesse texto uma mensagem dirigida à Câmara Municipal e ao seu responsável máximo: «Senhor Presidente, se renega o legado de Jaime Lopes Dias, julgo que seria mais correcto, moral e eticamente, devolver os livros à família. Haverá quem lhes dê melhor destino». Vimos agora afirmar, clara e frontalmente, que o silêncio é uma resposta totalmente inaceitável e ilegítima em democracia!

Reiteramos aqui vários aspectos que nos parecem fundamentais: em primeiro lugar, o facto de, ao contrário do que é referido noutros artigos publicados, a biblioteca ter tido, de facto, o nome de Jaime Lopes Dias. Tal é atestado não apenas por provas materiais, como a placa afixada à entrada da biblioteca, na qual constava o nome do Dr. Jaime Lopes Dias (o desaparecimento dessa placa é bem sinal de uma necessidade, que nos parece absurda, de fazer desaparecer os sinais de um reconhecimento de facto), como pelos livros da biblioteca, cujos carimbos ostentam o nome que lhe era efectivamente dado. Se tal não bastasse, o próprio site da biblioteca reconhece que, em 1984, esta «passaria a designar-se oficialmente Biblioteca Municipal de Castelo Branco – Dr. Jaime Lopes Dias.»

(ver imagem do site abaixo, retirada a 16 de Março de 2025):

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Mantemos que a mudança do nome demonstra, além de tudo o resto, desrespeito para com os órgãos políticos anteriores, democraticamente eleitos, que escolheram o nome de Jaime Lopes Dias para patrono da biblioteca, de 1984 em diante.

Reiteramos, também, que nunca a família precisou de se mover para que a vida, a obra e os inúmeros trabalhos de Jaime Lopes Dias em prol da cultura, do desenvolvimento económico e social do país e, em particular, da região da Beira Baixa fossem reconhecidos. Não é nem nunca foi nosso hábito gastar tempo ou esforços com a promoção da obra de Jaime Lopes Dias, que sempre teve vida própria. No entanto, há um aspecto que é nossa obrigação, e um direito de que não abdicamos: saber com rigor que destino tem sido dado ao legado de milhares de volumes que foram deixados à biblioteca de Castelo Branco, o maior e mais significativo existente na instituição, cujas responsabilidades culturais e arquivísticas não podem depender do nome que lhe dão em cada momento.

Aqui, este assunto ganha outros contornos, pois o silêncio de quem tem o dever de cuidar do que é público – neste caso, um vastíssimo património bibliográfico e manuscrito – não serve de resposta. Tendo tido notícia de que parte do espólio andou a vaguear por locais desconhecidos, exige-se novamente clareza: ou esse espólio é, de facto, devidamente cuidado e reconhecido ou os herdeiros, que são vários e estão bem vivos, sentir-se-ão no direito de exigir a sua devolução.

Cabe aos órgãos da Câmara Municipal, executivo e assembleia, encontrar uma solução para o problema que criaram, na certeza de que é seu dever preservar e dar bom uso público a um espólio único e tão vasto. Seria particularmente inusitado que uma pessoa que se bateu pelo acesso democrático à cultura e ao conhecimento, ao lado de figuras como Aquilino Ribeiro e João de Deus Ramos, fosse agora alvo de uma qualquer forma regional de “cancelamento”.

  • essencial que, a bem da transparência democrática, a Câmara dê conhecimento público de como tem cuidado do espólio que lhe foi confiado, bem como das razões que a levaram a desconsiderar uma figura que, a par da obra que deixou, contribuiu de forma ímpar para o desenvolvimento de toda a região ao longo do século XX.

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