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Caféde: Histórias de Vida numa Aldeia da Beira Baixa (1)

João Prata Augusto - 29/04/2026 - 13:30

Há cerca de 18 anos escrevi um artigo que foi publicado na Reconquista com o título “Caféde vale a pena”.

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Há cerca de 18 anos escrevi um artigo que foi publicado na Reconquista com o título “Caféde vale a pena”.

Desde há muitos anos que colaboro, pontualmente, com o jornal, a exemplo do meu pai que durante muito tempo foi enviando textos para o jornal sobre a aldeia de Caféde. Os textos que eu envio para publicação são, em regra, sobre a povoação, as suas necessidades, e sobre algumas particularidades do seu quotidiano.

No presente, porém, senti uma forte necessidade interior de voltar a escrever de forma simultaneamente ficcionada e romantizada, mas ao mesmo tempo retrospetiva. Um texto de memórias, de recordações, de sentimentos.

Porque é disso que se trata quando escrevo sobre Caféde. Se apenas ligar à razão não posso deixar de considerar que é uma terra igual a tantas outras do interior deste país, uma pequena localidade da Beira interior. Mas aquilo a que chamamos coração, aquilo que designamos por alma, no fundo não é mais do que a cabeça, a mente e a razão a expressarem sensações, imateriais porventura, mas reais.

Como anteriormente enunciei não nasci em Caféde, sou filho de cafedenses. Mas desde muito jovem (desde os 8, 9 anos de idade) habituei-me a passar ali largas semanas anualmente, em regra nos períodos habitualmente chamados por férias escolares, sem os meus pais (que por norma só iam em princípios de setembro).

Era nesses tempos que auxiliava os meus avós maternos nos dois estabelecimentos comerciais de que dispunham na casa onde viviam (construída pelo meu avô), e que ajudava os meus avós paternos nos trabalhos do campo, nos terrenos que tinham nos arredores da aldeia e no terreno adjacente à casa onde viviam, ou que descobria outras particularidades das atividades agrícolas com os padrinhos da minha mãe, numa quinta na Póvoa de Rio de Moinhos onde eram feitores. Sentia-me livre e autónomo nessa altura e talvez fosse esse sentimento que guardei e passei a transportar comigo desde então, sempre que regresso àquelas terras.

Ir buscar água à fonte dos poços ou ao chafariz da aldeia com uma cântara de metal de cada lado da albarda do burro era o meu desporto favorito. Fazia-o sozinho e isso dava-me orgulho, sentia-me adulto e responsável. E tinha sempre histórias para contar aos meus colegas e amigos de Lisboa, muitos dos quais desconheciam completamente o que era isso de “ir à terra”.

E quando contava que andava horas pelos campos com uma espingarda de pressão de ar na mão, acompanhado pelas cadelas dos meus avós maternos “Diana e Violeta” que me faziam sentir ainda mais seguro, atirando aos inúmeros pássaros com que me deparava nas caminhadas por terrenos alheios, via o brilho nos olhos que causava com esses meus relatos, mais ainda quando aparecia com umas dezenas de passarinhos que eu próprio cozinhava, condimentados com os ingredientes e da forma como tinha visto a minha mãe fazer.

Chegava a apanhar mais de uma centena de pássaros por dia, alguns com a pressão de ar, outros com os costis (chamados ratoeiras noutras localidades), onde se prendiam as agúdias (formigas de asa), que atraiam a passarada, sobretudo alguns pardais e muitos taralhões. Quando estava presente o meu pai, acompanhava-o durante largas horas de espingarda na mão, desde o nascer do sol até meio da manhã, observando como ele dispunha os cerca de 100 costis pelos terrenos à volta da aldeia, sempre procurando fazê-lo debaixo das copas das árvores e dispondo-os ao longo de centenas e centenas de metros de forma linear ou a desenhar imaginárias figuras geométricas (triângulos, quadrados, retângulos). Raramente perdia um.

Recordo-me de ter passado tardes com o meu pai a depenar mais de uma centena de pássaros, a tirar-lhes as tripas, a cortar-lhes as patas e os bicos, a prepará-los para a minha mãe fazer depois um arroz de pássaros.

Eram tempos de descoberta, de encanto e de espanto.

 

COMENTÁRIOS

JMarques
Este ano
Lindo, saudade, nostalgia e o chafariz agora tão mal tratado/cuidado.
Parte negativa, atirar aos pássaros...