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Caféde: Histórias de Vida numa Aldeia da Beira Baixa (2)

João Prata Augusto - 30/04/2026 - 8:00

Na aldeia de Caféde, concelho de Castelo Branco, em tempos da minha infância e adolescência, lembro-me de muitas e muitas histórias, de pequenos acontecimentos do quotidiano que ajudaram a completar todo um cardápio de recordações.

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Na aldeia de Caféde, concelho de Castelo Branco, em tempos da minha infância e adolescência, lembro-me de muitas e muitas histórias, de pequenos acontecimentos do quotidiano que ajudaram a completar todo um cardápio de recordações.

Lembro-me por exemplo de ir apanhar peixes nos charcos da ribeira de Caféde, com bombinhas de carnaval. O caudal da ribeira nos meses de estio era cortado no seu percurso, ficando enormes poças de águas estagnadas onde se acumulavam largas dezenas de peixes (barbos e eventualmente outros de que nunca soube o nome). Ficavam atordoados com as bombas que lançávamos e era fácil encher vários cestos, habitualmente usados nas vindimas, com largas dezenas de peixes. A minha mãe, as minhas avós e as tias da minha mãe dedicavam-se a fritá-los, forma como se mantinham comestíveis durante vários dias.

Eu sei que à luz dos conceitos atuais este tipo de comportamentos é censurável, criminoso até (espero, porém, que todos eles já tenham legalmente prescrito). Mas era o que era nesses tempos, uma mescla de aventura e necessidade. Nada era deitado fora, tudo era para consumo humano.

Nas minhas recordações consta também o dia da matação do porco. Tanto os meus avós paternos como os maternos no final de cada ano matavam um porco que iam engordando ao longo do ano. Todo o ritual me seduzia e encantava. Naqueles tempos era difícil estar do lado do porco e percecionar o sofrimento animal. Era com atenção que assistia ao modo como o especialista espetava a faca no animal, como ouvia os seus audíveis lamentos. Fazia parte. Depois assistia ao ritual protagonizado pela minha avó paterna e mais um “exército” de mulheres da aldeia a lavarem as tripas do animal nas águas da ribeira de Caféde (nessas alturas todos ajudavam todos). Mais tarde via as tripas a serem enchidas e darem lugar às chouriças, às morcelas, às farinheiras. À noite, em frente à lareira onde crepitava lenha, comia-se o “laburdo” (as vísceras do porco).

Todos os dias (e nesses tempos mais de uma vez por dia) os autocarros que vinham da Partida para Castelo Branco paravam por largos minutos em frente aos estabelecimentos comerciais dos meus avós, mesmo no centro da aldeia (só muitos anos depois percebi que “Partida” era o nome de uma aldeia, sempre pensei que ostentavam essa referência porque era o início da viagem). Era o tempo de muitos dos que viajavam nos autocarros (dois e mesmo três de cada vez), em ambos os sentidos, se apearem e me darem trabalho a tirar imperiais (uma novidade recente), atividade que o meu avô materno (na realidade o padrasto da minha mãe, porque o meu avô morrera quando a minha mãe tinha apenas 2 anos) se encarregara de me ensinar, ou não tivesse pendurado na parede do café um “diploma de tirador de cerveja” que granjeara numa ação de formação.

Lembro-me também do homem que, de quando em vez, aparecia pela aldeia, montado na sua bicicleta, com um cesto de sardinhas cobertas de sal, chamando todos os que quisessem comprar aquele peixe que eu, na altura, considerava nauseabundo e cheio de espinhas. Julgo que lhe chamavam “Ti Cainata”. Nessas alturas arredava dali, porque não eram odores que me agradassem particularmente ou a que estivesse habituado.

Eram tempos de crescimento pessoal, de desenvolvimento, de alegria.

 

COMENTÁRIOS

JMarques
Este ano
Bombinhas de carnaval: Já prescreveu!
Bombas aos peixes, armar costis aos pássaros, matança do porco etc, conheço todas essas vivências e sentimentos, vividos na década de 60 do século passado.
Mas hoje, o sofrimento imposto aos animais, principalmente ao porco, repugnam-me e agoniam-me, mas os tempos eram assim, o NORMAL daqueles tempos.