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Cata-Ventos; Andar na linha ou trinta por uma linha

Costa Alves - 07/09/2023 - 9:43

Em cadernos de duas linhas desenhava comboios que davam a volta ao mundo e voltavam para me levarem outra vez. Ainda deitavam fumo apreciando a paisagem cadenciada pelo “pouca-terra, pouca-terra”. Mas, como era cedo para vir a ser meteorologista e ainda mais cedo para nos confrontarmos com o aquecimento global, o que já estava a acontecer não aparecia nas linhas do horizonte. Na altura, ninguém era capaz de prever que a atmosfera iria aquecer tanto e que ficaria tão indisposta. Enfim, reviravoltas que as linhas do tempo fabricam.
Havia, na altura, o Movimento dos Não-Alinhados, mas não conseguiam alinhavar uma cosedura que se visse para se livrarem do apodo de Terceiro Mundo; como se houvesse Primeiro e Segundo. Designação feita por gente de (in)culturas euro e americano-centradas que continuam a enformar-nos.
Já havia linhas vermelhas, mas não tinham cor. Agora são aos pontapés com promessas de tolerância zero. Pavoneiam-se a agitá-las, mas, além de as apalavrarem muito, pouco fazem para que não se resumam a farrapos de bandeiras.
Ainda a propósito do vermelho das linhas com que nos vamos cosendo, nunca o Benfica conseguiu o reconhecimento da cor da sua camisola ficando “encarnada” nos equívocos de uma cor que não o é. É o que faz termos vivido vergados por uma ditadura que, depois de abatida, deixou rasto. Ainda fervem nas páginas da memória as pernas para que vos quero quando a polícia de choque atacava.
Enfim, tivemos um 25 de Abril, mas foi ficando sentadinho nas coxias de uma democracia que prefere não crescer em mais largo e de profundis. Restam-nos passatempos com frivolidade e diversão para que, cada um por si, tente arredondar as asperezas do seu viver. Com muito nas entrelinhas para sobreviver, continuando a subviver. E o que vier, virá. Não nos doa o pensar nem o andar; ande-se quente e ria-se a gente.
De resto, para além das linhas dos comboios, e dos ramais que chegavam aonde o despovoamento os apagou, há linhas de metro, linhas retas, linhas curvas, linhas cortadas, linhas com que se fazem camisolas, tapetes, até o Bordado de Castelo Branco que por aqui se embandeira sem saberes e fazeres que lhe façam futuro. Mas a História forneceu-nos linhas que não se apagam. Por exemplo, as Linhas de Elvas ou as de Torres ou as que nos fizeram correr com alma até Almeida procurando polígonos cujos vértices dissuadiam invasores.
Agora multiplicam-se outras linhas que já não são propriamente telefónicas. O “online” (ou “on line”? ou “on-line”?) tomou o poder e pode fazer o que quiser com os botões de cada um. Já que não quero entrar na linha anglófona do massacrante modo “one laine” de assim pronunciar, o leitor fará o favor de entender esta tentativa de voltar a denunciar a onda consolidada pela repetição. Não me esqueço do tempo em que repetíamos “cut and paste” e, ato contíguo, mandávamos “printar”.
Enfim, faço trinta por uma linha para me manter na crista da onda tentando que a onda não me comande. Mesmo não sabendo como a nossa língua criou esta expressão, às vezes é um consolo fazer coisas a eito e sem conta; coisas disparatadas que são sempre menores quando comparadas com os ensarilhados novelos em que enrolaram os fumos do nosso mundo. Realmente, quando a coisa encrava e as linhas se quebram ou se confundem, fartamo-nos de fazer trinta por uma linha, sem pensar no que há de vir. Um sarilho. Um trinta e um. Nem as linhas de Elvas, de Torres ou da alma até Almeida nos inspiram.
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