Deixai-me então acreditar nos dias/ da futura claridade…”, assim termina o poema inicial de “A Flor e a Noite”, primeiro livro de António Salvado. Tinha 19 anos em 1955. Acreditando e perseguindo os “dias/ da futura claridade”, assim começa o seu caminho de mais de 64 anos de criação poética.
Contendo títulos com edições esgotadas, saiu agora o 4º volume (625 páginas) da série Sirgo com reedições promovidas pelo Instituto Politécnico (onde foi professor) e pela Câmara Municipal de Castelo Branco. Sirgo IV reúne 19 títulos publicados entre 1955 e 2015. Os 52 títulos reeditados nos últimos dois anos, adicionados aos que publicou nos últimos tempos, atingem mais de 80 livros de poesia. Sem incluir a produção em diversas áreas do ensaio literário e museológico, da organização de antologias, realização de traduções, etc.
A sua arte poética e o caminho incessante de criador, inspirado em todos os campos da vida, definem-se logo no próprio livro de entrada (já um livro maduro): “Só as palavras, as formas são/ O resto… sangue no pensamento./ Depois é isso: redescobrir/ com as palavras cada pensamento”. Na altura, anuncia a sua “directriz de possível caminheiro”; diretriz que atravessará o tempo como caminheiro de todos os caminhos de palavras que a imaginação abre pela vida.
Já em 1955, parte da esperança e dela continuará a falar de acordo com a circunstância. Nesse ano, parte da “corroída esperança que retenho/ quando levanto num suspiro as mãos”, sabendo que “neste vazio um barco nunca parte”. A resposta é persistir seguindo “o meu suave rio” com a consciência de que “certas palavras caem mortas aos pés da esperança/ cansadas de atraiçoarem, cansadas de serem morte” (“Tropos” - 1969).
Não tendo espaço para me deter em cada livro e sendo difícil este percurso de quem tem, apenas, formação para apreciar e divulgar, passemos para “Difícil Passagem”, livro publicado em 1962 que volta a interrogar a sua arte poética definindo-a assim: “Difícil passagem,/ força quente perscrutada,/ corpo de névoa, de imagem,/ com sulcos de tatuagem,/ voz absoluta escutada.” Uma belíssima e rigorosa caraterização que ensina a apreciar poesia e quem a quer fazer enfrentando “o papel terrivelmente branco [que] procura as palavras.” E, confirmando a relação da (sua) poesia com a vida: “Se falo desta fonte é porque nela/ bebi”. A “Difícil Passagem” também se faz “pelo segredo contínuo da distância e do silêncio” e “cercados pela esperança, trespassados/ pelo queixume”.
“Cicatriz” (1965). Estamos numa fase da evolução da sua vida e do país em que “os ouvidos dos homens estão surdos,/ E só os surdos falam aos ouvidos dos homens.” Os horrores da guerra colonial estão presentes como cicatriz, muitas cicatrizes produzidas pelo sofrimento à sua volta num dos teatros da guerra. Está “a paz, em fragmentos”, está “solicitada nos lábios,/ adulterada nas mãos”. O “Conhecimento” (título de um poema) “ultrapassa a superfície/ lisa da realidade”, pois “é tempo para morrer,/ não para pensar (…) tempo do desespero contínuo/ e dos destinos forçados.// É tempo sem alegria,/ tempo das chagas abertas.// É tempo da ignorância/ e presos continuamos.” A cicatriz vem de muito fundo e é “sinal/ de permanência” que reforça o sentido de uma opção: “nos meus lábios eu levo a paz.”
Sem mais espaço, aqui ficam estas parcialíssimas, mas deleitosas, impressões de leitura, de uma pequena parte deste volume. Tão extensa e complexa obra precisa de análise especializada com repercussão nacional.