Pois é e depois espantamo-nos e vociferamos contra a maldição que nos caiu em cima. De nada valerá; está verificado e previsto pelos séculos. É maio e “Maio que não tiver trovoada não dá coisa estimada”; ou “Maio sem trovões é como burro sem orelhões”. Sendo certo que “Trovoada de maio depressa passa”, embora em situações de grande instabilidade convectiva podem lesar gravemente: “Maio às pedradas, deita por terra as searas”.
É na segunda quinzena do mês que começam as primeiras investidas do verão. Penetrando no Atlântico, a Península Ibérica é fortemente aquecida no período diurno em contraste com o meio oceânico que possui maior condutibilidade calorífica. Esse contraste térmico origina a formação de uma circulação contornante das fachadas costeiras e de uma depressão de origem térmica no interior e nos níveis baixos da troposfera. Nos níveis médios e altos, não se encontra ainda estabilizada a influência anticiclónica que sustentará um verão quase estável durante três meses.
A trovoada é um eletrometeoro originado nas nuvens de grande desenvolvimento vertical (cumulonimbos) onde ocorre um complexo processo de separação de cargas elétricas devido à rutura das gotas ligada ao mecanismo da precipitação. Como Franklin provou, as gotas mais pequenas ficam carregadas positivamente e são arrastadas pelas correntes ascendentes para o topo das nuvens. As maiores e as partículas de gelo adquirem carga negativa que transportam ao cair no interior da nuvem; abaixo, uma zona próxima da sua base fica muitas vezes com carga positiva. Quando existentes, as grandes diferenças de potencial elétrico provocam a descarga que pode processar-se entre diferentes zonas da nuvem e entre esta e a superfície terrestre carregada negativamente. Para a descarga, há para-raios, árvores ou, como infelizmente às vezes acontece, pessoa caminhando em praia deserta. “O raio não cai em pau deitado”.
Tem sido assim e estamos expectantes quanto à possibilidade de variações produzidas pelo aquecimento global originado pelo crescente aumento das emissões de gases com efeito de estufa. Estou a registar fenómenos do clima de maio identificáveis no adagiário popular pela sua repetição interssecular. No entanto, as suas compilações não garantem que as alterações climáticas sejam identificadas pelas sucessivas gerações que criaram estes saberes. Na componente meteorológica do adagiário encontro apenas um registo que pode caracterizar o período da Pequena Idade do Gelo, entre os séculos XV e XIX: “Nove meses de inverno e três de inferno”. Julgo que terá sido criado nesse período e não anteriormente quando vigorava a Pequena Idade de Clima Ótimo e que não deixou registos climatológicas compatíveis com este ditado que, aliás, era também utilizado nas regiões do Interior e em Espanha - “En Madrid [Castilla], nueve meses de invierno y tres de infierno”.
Isto para dizer que ainda não temos suficientes dados que nos capacitem a concluir existirem já manifestações meteorológicas de alteração do padrão climático do mês de maio. Dos meses de inverno e de verão há indicações de alterações significativas. Os outonos ameaçam variações sobretudo pela ocorrência mais frequente de episódios de chuva muito intensa de curta duração. Por seu lado, as primaveras dos últimos trinta anos comparativamente com as anteriores passaram a terceira estação na contribuição anual da precipitação em favor do outono, mas o comportamento do mês de maio (o nosso “Maio, Maduro Maio” do Zeca Afonso) ainda não permite uma conclusão.
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