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Cata-ventos: A Bazuca

Costa Alves - 22/10/2020 - 9:17

Desvie daí o sentido de que se trata de uma arma de guerra. Em vez de disparar granadas, a arma da moda dispara dinheiro. Não lança foguetes bélicos nem raios e coriscos mortíferos. Talvez venha a lançar fogos de artifício e outras feiras de enganos e desenganos lá mais para diante. Cá estaremos para ver.
Cá por mim, devo registar que não gosto de guerras, o que não me distingue da maioria esmagadora das pessoas. Quem é que, em juízo mesmo que imperfeito, pode gostar? “Pero que las hay las hay” e com todo o mal bárbaro e satânico que transportam sobre quem não pode com elas, mas é arrastado para as fazer e sofrer. Assim foi este mundo de prepotências e assim continua a ser.
“Bazuca”? Confesso que tive de verificar se não teria ouvido mal. Mas não; ouvi o que todos ouviram. O Primeiro-Ministro chama bazuca a um montão (batelada, barrigada?) de dinheiro que a União Europeia decidiu preparar para enfrentar a tormenta. 
Ainda pensei que António Costa não sabia o que é uma bazuca. Se calhar não foi à tropa e, mesmo que tenha ido, não terá aprendido o que é uma arma de fogo. Pelo menos de morteiro para cima, canhão ou míssil teleguiado, parece que não sabe. Saberá de tiros no pé; para a política dos andares lá de cima quase todos os dias são dias para os dar. O Primeiro-Ministro não sabe é o que diz o menino no desfile em que o rei vai nu: uma bazuca serve para destruir e matar; não para fazer dinheiro.
É um lança-foguetes portátil utilizado desde a Segunda Guerra Mundial para atingir sobretudo veículos blindados e, até, construções e infantaria inimiga. É para uso exclusivo das forças armadas em todo o mundo, embora muito apreciada por grupos paramilitares. As versões modernas são de uma sofisticação tecnológica que consegue destruições impensáveis. São granadas com grande poder explosivo; não são confetis, papelinhos, ou prendas abençoadas por campanhas eleitorais.
Pois bem, foi neste equipamento de devastação que o Primeiro-Ministro se inspirou para dar nome ao tal plano financeiro de Bruxelas contra os efeitos da pandemia. Falou mesmo em “poder de fogo”. Estranho, não é? Supostamente, o pote de dinheiro será para aplicar em construção, criação, crescimento, não sei se em desenvolvimento sustentável – isso já será de outra conversa. E quer fazê-lo usando uma bazuca? 
Não posso deixar de me lembrar que também quiseram tratar a Covid com filosofias de guerra, mas cedo morderam a língua e calaram-se. Descobriram que era dar mais um tiro no pé, parecendo quererem imitar a América que espalha tiros (e até joelhadas letais) por todos os lados. Na verdade, mal despertei, estremunhado, para a estranha alteração de significado da palavra, comecei a ver uma imensa fila de seguidores a bazucarem-nos verbalmente com a essa arma. Todas as bolhas da política, do jornalismo, do comentarismo, e tantas mais, não querem outro vocábulo para se referirem à iniciativa europeia de atirar dinheiro (condicionado, condicionado) para o lume dos problemas que a Covid espalhou. Provavelmente, acham que as fogueiras se apagam, por si só, com notas de papel. Não com notas de mudanças na civilização.
Realmente! Não me passaria pela cabeça que alguém viesse estragar ainda mais o nosso idioma designando um programa financeiro com uma palavra de guerra destruidora. A imaginação que produziu a metáfora de uma bazuca financeira (mesmo que tão pobre e desfigurativa) não é imaginação. É desimaginação. A imaginação também está avariada. Deve ser por conta do “Stay away”.
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