Volto ao maio de que só amanhã sairemos relembrando que o ditado climatológico “Chuva de maio me molhou e logo me enxugou” não teve expressão significativa este ano. E nem sucedeu um fortíssimo aguaceiro que “alaga a fonte e passa a ponte”. Não vou extrair daí a conclusão sumária de que o aquecimento determina o que não aconteceu. Não é assim que a ciência trabalha.
Busquemos horizontes do imaginário popular histórico, por exemplo sobre as características trovoadas da segunda quinzena de maio em que normalmente começa a transição para o nosso verão climatológico com a entrada da depressão térmica ibérica até à sua saída em setembro que é designado pelo adagiário como “O maio do outono”.
A trovoada é um fenómeno de extrema violência e originou crenças e superstições, algumas ainda vivas. O relâmpago surge no imaginário popular como uma visão do céu havendo quem queira decifrar os seus segredos por aquela estreitíssima fresta de luz. O raio é uma pedra incandescente que deixa “a terra esgadanhada” e, afundando-se, leva sete anos a vir à superfície. Normalmente, essa pedra é um instrumento pré-histórico com forma complicada pela combinação da “friura” e da “quentura” e que serve de esconjuro quando exibido nos telhados ou guardado dentro de casa.
Quando trovejava (“está a barulhar” dizia-se em Juncal do Campo, Castelo Branco), tocava-se uma campainha benzida, ou queimavam-se pinhas, e, até onde chegava o som, ou o fumo, o raio não caía. O trovão era a voz de Deus no céu a ralhar ou, então, o barulho de trabalhos celestiais rotineiros (arrastar de cadeiras depois do jantar, mudanças de móveis) e, por isso, com a trovoada em cima, era falta de respeito fechar portas ou janelas. Para o esconjurar, acreditava-se em Proença-a-Nova que, atirando um bocadinho de trovisco para cima do telhado, ou metendo um ramo de trovisco no buraco da fechadura, na altura da trovoada, a afastava para longe.
Parêntesis: permitam que volte atrás para me perguntar por que razão não utilizamos o verbo barulhar? Pela minha parte queixo-me tanto do barulhar dos canais de televisão e da forma de fazer política de quase todos os que andam nela que … enfim, será melhor evocar duas entre as muitas (belíssimas) orações de esconjuro das trovoadas em tempos em que o mecanismo físico de geração e desenvolvimento destes eletrometeoros estava longe de ser conhecido.
S. Jerónimo e S. Gregório são frequentemente convocados nas orações, mas saboreemos uma das mais belas originária de Pedrógão Pequeno: “S. Gregório se levantou e seu cajadinho tomou. / - Para onde vais tu, S. Gregório? / - Vou derramar as trovoadas que por cima andam armadas. / - Derrama-as para lá dos maninhos onde não haja mulher com meninos, nem vaca com bezerrinho, nem eira nem beira, nem folha de figueira, nem coisa que Nosso Senhor queira.” Uma beleza.
Como não podia deixar de ser, termino com outra belíssima oração na mesma linha de orientação invocativa da dirigida a S. Gregório. Agora apelando a Santa Bárbara, padroeira das trovoadas e o mais seguro e fiel amparo das aflições convocadas por estes fenómenos muito intensos. Esta foi criada no distrito de Vila Real: “Santa Bárbara bendita / Se vestiu e se calçou, / Ao caminho se botou / A Jesus Cristo encontrou; / E Jesus lhe perguntou: / - “Tu, Bárbara, onde vais?” / - “Vou espalhar as trovoadas / Que no céu andam armadas, / Lá na serra do Marão, / Onde não haja palha nem grão, / Nem meninos a chorar, / Nem galos a cantar.” Outra beleza.
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Adorei
Abraço