Esta nossa cidade, antes de ser cidade, já tinha história. Foi elevada a Vila Notável no reinado de Manuel I e veio de vila tão só, aldeia e lugar de povoamento português; antes fora chão de outros povoamentos que por aqui fizeram vida e deixaram sinais. Desde a Idade da Pedra e não esquecendo a ocupação romana.
São 250 anos de cidade. Aconteceu em 1771, estava o Marquês de Pombal no apogeu da sua “iluminada” liderança tirânica, reinado de José I. Já o Paço do Bispo e o seu Jardim, que virão a ser classificados como Monumento Nacional, estão criados e receberão, no mesmo ano, a instalação da sede da Diocese de Castelo Branco que, em 1881, deixou de o ser.
No primeiro quartel do século XIX, a cidade expandia-se fora da antiga fortaleza. A extensa formação amuralhada que abraçava a colina é, então, assaltada para sustentar o crescendo de construção imobiliária roubando-lhe grande número de pedras e desfazendo os portais de entrada na povoação medieval. O desenho da vila-fortaleza, feito por Duarte d’Armas em 1509, fica a pairar como uma miragem que as nossas aspirações de hoje não desdenhariam se fosse real.
E, no entanto, alguns dos nomes das ruas falam desse tempo. Alguns permanecem indecifrados, ou como hipóteses ou sugestões. Exemplos: as ruas do Caquelé, D’Ega, da Fonte do Tostão, dos Chões, do Poço das Covas, da Cabeça, do Arresário, dos Cavaleiros, da Caleja Nova. Outros nomes reportam-se a atividades fáceis de identificar como dominantes no tempo: ruas dos Oleiros, Peleteiros, Ferreiros, Lagares, Passarinhos. Perto do Arco do Bispo, começa a Rua Nova que já assim era designada no século XVI. Segundo o historiador Jorge Martins, com base em testemunhos inseridos em processos da Inquisição, era nesta Rua Nova que se localizava a sinagoga e não, como ainda hoje é erradamente referenciada em placa colocada no nº 12 da Rua da Misericórdia.
Não esqueço as algumas centenas de Portados Quinhentistas que povoam as entradas de muitas das casas em várias ruas. Portados com fissuras, lintéis, frinchas, ornatos, frestas/ por onde se pode ver o tempo:// Oleiros em ruas com chões de indecifráveis caquelés/ cavaleiros que desfraldam apagadas poeiras templárias/ ferreiros nas calçadas onde desfilam cabeças que ainda ousam não esquecer./ Também vejo enigmáticos arressários/ e esta Rua d’Ega onde terão acampado fermentos de pão - aqui nasceu António Salvado./ Meço becos em muros que não conseguimos derrubar/ olho a fonte do tostão e de outros ecos que se perderam da nascença/ e avanço por quelhas herbárias que Amato Lusitano levou ao mundo.// Sigo por ruelas de peleteiros e calejas amuralhadas/ entro em praças novas e distingo Cargaleiro em matérias de luz./ Passo em travessas de jasmim, de covas e de passarinhos/ entre frésias que Eugénio de Andrade desocultou./ E ouço João Roiz em cantigas partindo-se/ deste tempo da cidade indecifrada.
Mas, a cidade não sabe o que fazer da sua vida antiga. Que funções deve desempenhar nos dias de hoje e que intervenções deve promover para lhe dar outra vida e buscar relação harmónica com a cidade que se desenvolveu fora das muralhas. Temos história, mas muito pouco investigada e, portanto, temos cultura e práticas de cidade histórica muito pobres.
Há cidades e vilas e aldeias no nosso país e no estrangeiro que dão exemplos de como vencer as situações ruinosas que tinham herdado. Aqui, não há projetos nem planos que integrem o património da memória em intervenções com visão de futuro.