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Cata-Ventos: De peito feito ao léu

Costa Alves - 05/11/2020 - 9:35

Afinal tive sorte. Consegui tomar a vacina contra a gripe. Tive sorte, mas não a tive toda. É certo que tudo correu bem, após a desilusão inicial de não conseguir que alguém atendesse o telefonema para o Centro de Saúde ou respondesse à carta que enviei por correio eletrónico. E a farmácia não garantia: a lista de inscritos era muito maior do que o número de vacinas. Enfim, compreende-se, mas quando mais precisamos é que temos menos. O bicho careta desarrumou todas as gavetas das nossas vidas. 
No entanto, valeu a pena insistir e a segunda chamada para o Centro de Saúde foi remédio santo. No dia seguinte, já podia esperar a evolução do outono sem mais esta preocupação. À consideração dos meus leitores: nem esperei vinte minutos. Um excelente exemplo nos tempos negros que atravessamos. A influenza pode vir e entrar dentro de mim que não consegue nada. A maldita Covid é que é o diabo.
Mas, a coisa não correu totalmente como eu imaginava; não pude ultrapassar um mas. Então não é que a enfermeira não me deixou despir a camisa e ficar de peito ao léu?! Digno de me apresentar ao trono de quem se mostrou ao país ajaezado de tronco nu (em topless, n’é?) como nunca tínhamos visto vacinar assim. Isto é, como quem vai à praia apenas de calças vestido e com uma câmara de televisionar a cobrir reverencialmente a cena. Julgava que o exemplo presidencial era para cumprir. Nem via razão para a risota que assentou arraiais nas redes de pescarias digitais que campeiam por aí. Até pensei com os meus botões: tomarendes voceses posarendes assim de peito feito a vacinarendes as vossas frustrações, seus desagradecidos!
No meu caso, nem pude servir-me do meu telefone (há quem persista em chamar-lhe telemóvel, um móvel à distância, o que não significa coisa com coisa), virá-lo ao contrário e zás! Uma sélfi. Pensava que a enfermeira, convertida à nova moda do tronco nu presidencial, iria aplaudir. Se o senhor mais que omnipresente e omnifalante assim fez, então devemos-lhe a vassalagem de o secundar. Tenho dito. Até parece que estou a botar faladura no Parlamento.
Vendo com olhos de ver, tomar a vacina de troco nu em público é outra loiça. Até a madame Pompadour invejaria. Os braços a exibirem veias de aço em músculos de ferro; os ombros a brilhar de tanto recolherem o bafo do sol; e os peitilhos (atenção, senhoras, a conversa não é convosco!) murchitos e grisalhos, mas peitilhos de peito feito a gritar: “Stay away”, vade retro gripe sazonal!
Devo confessar que se tivesse um televisógrafo na minha frente, o meu peito ao léu também luzia; ó se luzia. Poder mostrar a toda a gente este meu físico ex-atleta, bronzeado nas praias da albufeira da Marateca (e não nas de Cascais) melhorava em muito o meu parecer e de certeza que não hesitaria. Aparecer na televisão seduz qualquer um. Mas, a senhora enfermeira não foi na conversa: Não há cá peitos ao léu nem filmagens para português ver.
No fim de contas, só posso dizer à gripe o que o Primeiro-Ministro tem andado (um tanto pró-desesperado) a promover sozinho com técnicas de vendedor mal amanhado: “Stay away” influenza! Fica longe! Bem basta a Covid que nos consome o juízo. Com stei ueis obrigatórios, se fosse eu, até detetava o bicho na sola dos sapatos que ponho ali ao canto, mal abro a porta da casa.
Enfim, com estas e outras bem mais fundas e escondidas artes de fazer e comunicar, cá vão estragando a democracia. Santa Paciência me valha! Só uns pozinhos de surrealismo me podem sustentar.

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