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Cata-Ventos: Falar por falar

Costa Alves - 12/09/2019 - 9:14

Enfim, falemos do tempo para (não) variar. Falemos das estações que já não serão o que eram, lembrando os anos em que se sucediam com a conta, o peso e a medida das nossas expetativas. A atmosfera evolui indiferente aos prazeres e desprazeres que nos traz. Agora, só nos contraria e cá vamos, sem saber para onde.
O acordo de Paris entra em vigor em 1 de janeiro de 2020? Deixá-lo entrar, não nos doa ainda mais a cabeça! O Trump, mais o Bolsonaro e o da Arábia Saudita, e alguns mais, é que vão marcar o compasso e, tal como estão, as Amazónias, Alascas, Sibérias e Gronelândias deste mundo não engordam paraísos fiscais. É preciso pôr a render os espaços ocupados pelas florestas e pelos gelos. Há tanto gado por criar e tanto minério ao Deus-dará. E mais combustíveis fósseis, ora essa!
Que interessa agora que uns desgraçados fujam dos seus infernos de mal-viver? O deus-dinheiro tomou conta de tudo e há suspeitas de que até já entrou na casa dos pais da Greta Thunberg. Isto está bom para feiticeiros e tiranos.
Falemos, então, num falar de coisas de somenos. Num falar de verão. Por exemplo, de televisão. Futebol atrás de futebol; manhãs e tardes com passatempos que se financiam como se também fossem casinos; novelas que cativam olhos parados; informação repetida com facas e alguidares à vista.
Tento zarpar para outros horizontes, mas os filmes da América especializaram-se em efeitos especiais com morbidezas e o dito “serviço público” é uma máscara de indiferença a imitar a falta de diferença. Que fazer? Raspar-me dali para fora? Sacar o comando e disparar sobre o televisor? A vida são dois dias de sol fora de um poço e não uma dança com lobos a embalar índios que, ainda por cima, vão ser exterminados; como no filme do Kevin Kostner. Estarmos sós não significa que tenhamos de nos render ao que massacra ou esvazia.
Na televisão não se toca nem com a flor de uma queixa - diz ela. Deus me livre e ai de quem o fizer. Mas, como sou um tipo às avessas, deixem-me zarpar, mas’é, pró “Livro das Caras” (precisam que comute para a língua preferida? Vá lá, condescendo: “Facebook”). Ali é que há matéria e matérias, opiniões abalizadas e arrasadoras, opiniões sobre tudo e sobre nada, sobretudo quando não sabem quase nada do tudo sobre que falam. Sempre com a devida consideração pelas exceções, até ficamos a pensar que essa civilização é que é a substância da democracia.
Já que esta conversa foi parar à televisão e ao “Livro das Caras”, lembrei-me de que estamos em tempo de campanha eleitoral. E que, embora ainda não tenha saído do adro, já há cartazes a piscar, como se resolvessem os problemas numa linha. E já há fogos de artifício a encandearem-nos de espanto. O melhor dos que tenho visto a iluminar o palco é de um mestre da prestidigitação a representar uma personagem que garante não querer maioria absoluta porque, diz, o povo fartou-se das que teve. Mas reza em voz alta a todos os santinhos dos eleitores para que lha deem. Precisa de os convencer de que o voto deles não lha vai dar. Negar para ter, ora aqui está um “golpe de mestre”, como dizem os comentaristas apreciadores de aparências que escondam o real.
Se calhar, era melhor continuar a falar do tempo. Um verão deste jeito, com fogos que se abatem em dois tempos, não é para todos os anos. Felizmente vêm aí os fogos da campanha. Mas, desconfio de que vou arder de tédio.
Post Scriptum. Não posso estar muito tempo em frente da televisão ou do computador. Dá no que dá em textos como este. Agradeço a sua paciência.

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