Este site utiliza cookies. Ao continuar a navegar no nosso website está a consentir a utilização de cookies. Saiba mais

Cata-Ventos: Impávidos e serenos

Costa Alves - 20/10/2022 - 9:32

Dizemos, muitas vezes com a (aparente) maior franqueza, que ficámos impávidos e serenos, mas nunca vimos alguém garantir ter ficado pávido e não-sereno. Na verdade, sendo uma legítima expressão antónima, é estranho que não lhe seja permitido receber vida e caminhar. Usamo-la com muita frequência, geralmente como bengala que irrompe automática por dá-cá-aquela-palha, como expressão que se desabafa com nenhuma utilidade.
Impávido, dizem os dicionários, significa sem medo, intrépido, ousado, destemido, denodado, que nada demove. Por seu lado, sereno é calmo, ordeiro, sossegado, ameno; não ferve em pouca água e, se for em muita, logo veremos se é como se fosse em pouca. Já se está mesmo a ver que impávido e sereno não se conjugam bem; só em poucos e nem sempre. Basta ver qualquer debate na Assembleia da República. Impávidos e serenos? Ora essa! Quando coincidirem, talvez a democracia melhore.
Na realidade, podemos manifestar-nos virilmente como impávidos, mas nunca como pávidos - palavra que nem a mim próprio algumas vez tinha sussurrado, mas que os dicionários registam. Destemidos, ousados, intrépidos, é assim que gostamos de fazer figura na imagem que tenham de nós, embora continuemos a não saber o que fazer com tal jactância.
Quando dizem “os portugueses assistem impávidos e serenos ao empobrecer das suas vidas”, estão a passar-nos um atestado de residência fixa para submissos, apáticos, distraídos, atomizados, resignados. Não há notícia de que tenhamos ficado impávidos (resignados, sim) perante, por exemplo, os tratos de polé a que está submetido o Serviço Nacional de Saúde. Para que deixe de ser o que foi e deve. Ou do que têm feito de mau, e nada de bom, aqui ao lado, na albufeira de abastecimento público de Santa Águeda; até água lhe querem tirar para regadio. Para não falar do fosso que um grande proprietário abriu na estrada pública que levava Malpica do Tejo ao seu rio. Que temos feito? Ficamos serenos, serenos de resignação, mas de impávido não temos sequer um dedo.
Mais uma vez deparamos com um paradoxo: impávido só existe se estiver automaticamente associado a sereno. E, assim, ligando o impávido ao sereno, parece que o fazemos para anular qualquer ação e aceitar qualquer sorte. Assim nos querem e, à falta de sabermos como mudar o mundo, assim vamos permitindo que estejamos mesmo pávidos e serenos, que é o que realmente nos conforma e, pelos vistos, muito nos conforta. Calculadamente temerosos e mansos.
A propósito de sereno, lembrei-me da profissão de guarda-noturno - que Deus tem. Rondava, vigiando as redondezas por conta dos habitantes, e era conhecido por sereno. Nunca soube por que razão lhe afixaram a distinção de “Sereno”. Mas era impávido, também. O exercício da profissão exigia que não tivesse medo do escuro e que fosse destemido contra qualquer ameaça da má sorte. Portanto, um impávido a trabalhar no e pelo sereno das noites em que os dias revoltos se deitavam a descansar. 
Também havia outra designação de sereno. Vem do fundo dos tempos e ainda tem mais atualidade hoje: “Livra-te do sereno como do veneno”, avisa o ditado popular. Isto é, se o ar não for renovado a estagnação envenena.
Mas talvez o “sereno” nos convide a estender o sereno da madrugada para uma das mais preciosas palavras do nosso idioma: serenidade. Com um extrato de um poema de Raul de Carvalho: “Vem, serenidade!/ Vem cobrir a longa/ fadiga dos homens (…) e faz que não fiquemos doentes, só de ver/ que a beleza não nasce dia a dia na terra.”

[email protected]

COMENTÁRIOS