Pois é, leitor, isto está mau! Num instante, caímos do bom para o mau, do oitenta para o oito. Acontece-nos com frequência. Do pedestal para o chão vai um saltinho de pardal. Boa parte dos outros países está pior, mas esse consolo não resolve o problema, sobretudo quando ficamos a saber que os unidos europeus estão em guerra pela disputa do que de turismos se puder aproveitar.
Durante quase três meses, andámos confusos, amedrontados, contraídos. Obedecemos ao medo e parámo-nos. Conseguimos confinar-nos e sentimos que nos tínhamos superado. Depois, veio o cansaço. O cansaço doía ao levantar, doía ao deitar, doía a sonhar, estava tudo contaminado à volta do que pensávamos. Nenhuma palavra acendia uma luzinha. E a catástrofe sanitária tornou-se, também, económica e social e, inevitavelmente, impôs-se o vocábulo de sentido oposto: desconfinar.
Desconfinar significou medo a evaporar-se, alívio, descansaço, foguetórios balneares e alcoólicos, conversas desatadas, transportes e habitações sem escapatórias. Até fogos de artifício lançaram pela (suposta) conquista turística da fase final do campeonato europeu de clubes de futebol sonhando com multidões a chegarem de Liverpool, Manchester, Munique, Madrid, Barcelona, Paris, Turim. Tínhamo-nos tornado turístico-dependentes.
Não atingíamos, apenas, um grande oitenta; abarcávamos o céu inteiro libertos dos fantasmas de sermos pequeninos. Estávamos desvanecidos, a sonhar com a salvação que a (também) infetada Europa nos iria trazer e, pumba!, até os nossos aliados mais antigos se desenfiaram, cortaram o anel, lembraram-se de que a British Airways pertence à Ibéria espanhola. E nem quero rever as imagens da reabertura dos bares em Inglaterra ou os ajuntamentos de estudantes holandeses no Algarve a imitarem o que alguns dos nossos vão fazendo por aí. E a União Europeia de bico calado a abençoar a desunião.
É o diabo! O diabo veio mesmo. O tal, o tão falado na politiquice dos últimos anos, trocou-nos as voltas. Disfarçou-se de Covid, tomou conta do mundo com os venenos do deus-dinheiro e pulverizou todos os prognósticos e crenças. Depois de nos termos superado, julgando que já não tínhamos defeitos, eis que desabam sobre os nossos ombros incrédulos. Aqui e em todas as latitudes. O modo de vida do mundo deu de si e não prevemos aonde irá parar.
Como não podia deixar de ser, a (ineficaz) preocupação com as alterações climáticas ficou esquecida. A grande diminuição da atividade económica resultou na redução das emissões de gases com efeito atmosférico de estufa. Mas, na Sibéria e noutros territórios do Ártico, a temperatura do ar superou largamente os valores médios e as florestas voltaram a arder ainda mais gravemente do que nos últimos quatro anos, os mais quentes desde 1880. Até agora, não conhecemos o balanço nem as quantidades adicionais de metano e CO2 libertados pela fusão das regiões permanentemente geladas. Afinal, até o único “bem” da pandemia está em risco de não o ser.
Agora, não sabemos por onde ir. Saímos do buraco e descobrimos que os horizontes do desconfinamento estão polvilhados de inúmeros buracos. E nem queremos pensar na conjunção da Covid com a gripe que o outono trará.
Está muito entranhada a ideia de que só podemos tratar um problema de cada vez e, como não há nenhum que possa ser tratado isoladamente, nem às apalpadelas andamos. E não conseguimos ver que a porta de saída não está em voltar à tal normalidade que criou a situação catastrófica em que o mundo se debate.
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