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Cata-Ventos: Mais uma vez ardidos

Costa Alves - 04/10/2024 - 16:48

Não é a primeira vez, nem será a décima-primeira, que a desgraça dos incêndios imparáveis nos bate assim à porta, mas é sempre esquecida como se fosse única e irrepetível. Temos esta doença que intuímos ser incurável, uma fatalidade a que o destino frequentemente nos submete. Isto escrevia aqui em 27 de junho de 2017.
2017? Cento e catorze mortos. E Armamar em setembro de 1985? Catorze mortos. E os dezasseis de Águeda em junho de 1986? E cinco de Bragança, em 1987? E quatro em Arganil, em setembro de 1992? E o concelho de Vila Velha de Ródão a arder durante 10 dias em 1998? Em 1991 e 95 (lembro-me como se tivesse acontecido há duas semanas) o vento, também do quadrante leste, furioso e indomável, varria tudo em menos de um fósforo. E nem falo de tantos outros lugares de catástrofe já apagados dos livros da nossa memória.
Em 21 de agosto de 2003, há 21 anos (já?), escrevia também neste jornal que, nesse ano, a onda de calor deixava 426 mil hectares queimados, 21 mortos na floresta e 1953 por exposição a calor extremo. Dois anos depois, são consumidos 339 mil ha e, entre 2003 e 2013, verificaram-se 6320 óbitos por causas relacionadas com o calor. Está por revelar o número de mortes excedentárias verificadas desde 2016. Não me canso de repetir que as ondas de calor produzem duas frentes de calamidade e não apenas a da floresta. Ainda no horizonte está o que aconteceu em 2017 e a conclusão de que o aquecimento global, finalmente reconhecido, está a agigantar exponencialmente os problemas. 
Onde estarão as lições retiradas dos escombros do que magoou e originou os comentários da praxe e os juramentos retóricos de reformas de fundo que nunca vieram? Quem não mudou o que teria obrigatoriamente de ter mudado? Quem não nos defendeu dos futuros que continuarão a destruir a despovoada ruralidade transformando-a num fardo explosivo?
Movido pelas meias tintas de quem vem ocupando o poder político, este nosso país tem a memória curtíssima e apenas se manifesta com emoções à flor da pele quando a catástrofe irrompe. E depressa esquece o que gritámos, as práticas e as ausências de práticas que maldissemos, as efémeras promessas sopradas pelos ventos políticos da ocasião.
Tantas vezes nos juraram que nada viria a ser como dantes e tantas vezes o futuro nos contemplou a chorar sobre o leite derramado. Tantas vezes nos flagelámos, tantas vezes elegemos bodes expiatórios, tantas vezes fizemos figuras de retóricos acusadores e tantas vezes nos disseram que fariam tudo e nunca fizeram um milésimo do estrutural, do estrategicamente preventivo, do que requer ciência e racionalidade, plano e resistência aos interesses que não querem mudança.
Tudo a retórica levou. A opção de atingir as causas não foi feita e as ciências e os seus recursos não foram convocados. Os interesses, a ignorância e a falta de vontade mantiveram a necessidade arredada. É um país infeliz, um país bloqueado sistematicamente por poderes políticos que olham para o território rural como ingerível. Poderes políticos que vivem num labirinto de irracionalidades e não as decifram como irracionalidades.
Seguindo as piores retóricas do passado, tudo indica que quem governa continua a não querer partir. No modo populista que está a dar, toda a problemática é comprimida numa só faceta: ignições premeditadas. E, como é habitual, a sociedade continua parada, a deixar passar o que passou sem manifestar vontade e capacidade para impor o caminho de uma reforma de fundo.

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