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Cata-Ventos: Mobilização global pelo clima

Costa Alves - 24/09/2020 - 9:20

Já não falamos de aquecimento global, alterações climáticas, fenómenos meteorológicos extremos. Sobretudo, não fala quem deve. A pandemia ocupa todos os poros. Até parece que calhou bem a quem comanda o nosso mundo. Ajuda a esconder os propósitos de ir tratando da crise climática fazendo apenas aquilo que não pode deixar de fazer empurrando o essencial para os fumos das calendas. Lógicas do deus-dinheiro.
Fora isso, há ressalvas a fazer. António Guterres a bradar para as lonjuras de quem tapa os ouvidos. O Papa a recordar os termos da viragem do Vaticano com a encíclica “Laudato Si”. Greta Thunberg que há dois anos abria as Sextas-Feiras pelo Futuro. E a comunidade científica sempre a insistir, desde 1990, consistente e coerente, pelos caminhos de mais conhecimento. E, cá em baixo, as palavras e as ações de quem não desiste de pressionar os que devem. Associações ambientalistas, pequenos grupos e jovens muito jovens que nasceram da sementeira de Greta a partir de 2018.
Para amanhã, está convocada uma Mobilização Global pelo Clima. Reflete a consciência do agravamento, induzido pela pandemia, das condições para enfrentar a crise climática. As fragilidades e os riscos do sistema resultante da forma dominante de estar, produzir e consumir estão bem mais expostos. Dizem os promotores da Mobilização que “a solução da crise climática exige uma transição energética justa, que reconfigure os meios de produção baseados em fósseis, garantindo soberania energética e democracia produtiva”.
Nada disso se faz e não estão no horizonte políticas de fundo que garantam. Do acordo de Paris nada se sabe nem se diz. Não há políticas pensadas, organizadas, coordenadas, para suster o aquecimento global. As crises climática e ambiental nunca foram tratadas como crises. O fosso, entre o que precisa de ser feito e o que realmente faz quem deve, é demasiado largo e fundo. E as ondas de choque da Covid-19 agravam os impactos.
A pandemia faz o seu trabalho de devastação e ocupa todos os espaços e tempos de preocupação das sociedades. Entretanto, o quadro de aquecimento global continua a sua marcha de efeitos catastróficos com ondas de calor, incêndios, inundações, furacões, tempestades de diversas tipologias, colapso de glaciares, degelo de áreas permanentemente geladas e mais emissões de gases com efeito de estufa, devastação de ecossistemas e muitas vidas e meios de subsistência perdidos. 
Como diz o texto para a Mobilização de amanhã, com a casa a arder, “terão de começar a explicar porque estão a desistir do acordo de Paris” e a continuar a “fazer tudo como até aqui”, não respeitando o conhecimento científico em favor dos interesses económicos e financeiros dominantes.
Nota. Não fique sem menção a atribuição a Greta Thunberg do recém-criado Prémio Gulbenkian para a Humanidade. Jorge Sampaio, presidente do Grande Júri, sublinhou o amplo consenso da escolha, destacando “a forma como Greta Thunberg conseguiu mobilizar as gerações mais novas para a causa do clima e a sua luta tenaz por mudar um status quo que teima em persistir”. Atribuído pela primeira vez, o montante será aplicado pela premiada em projetos de combate à crise climática e ecológica, de forma a ajudar os que enfrentam os piores impactos, particularmente no Sul. Os primeiros 200 mil euros, do total de um milhão, serão doados à SOS Amazonia Campaign, da Fridays for Future Brazil, que combate a Covid-19 na Amazónia, e à Stop Ecocide Foundation para tornar o ecocídio um crime internacional. 
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