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Cata-ventos: O desenrascanço

Costa Alves - 18/06/2020 - 9:39

Há meses, um portal norte-americano apresentava uma lista com as dez palavras estrangeiras que, na sua apreciação, mais fazem falta à língua inglesa. E atribuiu-nos a subida honra de a encimar com a palavra portuguesa desenrascanço.
Segundo o autor, “desenrascanço” é “a arte de encontrar a solução para um problema no último minuto, sem planeamento e sem meios.” E dissertava: “Enquanto a maioria de nós [norte-americanos] crescemos sob o lema dos escoteiros ‘sempre preparados’, os portugueses fazem exatamente o contrário”.
A prova também a descobriam: “a dada altura” (não diziam quando) “eles [portugueses] conseguiram construir um império que se estendeu do Brasil às Filipinas à custa do desenrascanço” - incluírem as Filipinas no nosso império quinhentista será uma falha menor dos saberes geográficos que levam muitos norte-americanos a não saberem, sequer, onde fica Portugal.
E, quanto à sua cultura histórica, este texto também tem que se lhe diga. Realmente, atribuir a expansão portuguesa dos anos de 1400 e 1500 ao “desenrascanço”, é um erro incorrigível, mesmo com a palmatória da instrução primária do antigamente.
Equivaleria a dizer que o assassínio cirúrgico de um general iraniano proviera de um impulso desenrascador da falta de preparação dos decisores do país que ainda quer continuar a comandar o mundo. E não é preciso recordar como se meteram no Vietname e como ficaram enrascados até que o desenrascanço consistiu em sair com a derrota da sua autoconvencida invencibilidade. No Iraque, funcionou o desenrascanço da mentira e abriu a tampa dos muitos venenos que a região tinha incubados e que, agora, se espraiam com outra, ainda grande, perigosidade. Desenrascar a paz é sempre preciso, mas não é da sua natureza prepará-la, fazê-la e mantê-la.
Tenho para mim que não somos proprietários da medalha do desenrascanço. Os desesperados deste mundo (há tantos nos EUA!) dão lições de “improvisação de última hora que, não se sabe bem como, mas funciona”. Funciona, salva vidas, remenda e remedeia, às vezes com riscos maiores que o desejo de viver, como os que se fazem ao Mediterrâneo, foragidos de guerras, alterações climáticas e desgraça de viver.
Até a Covid revela o contrário. Nós temos o Serviço Nacional de Saúde e eles o desenrascanço de quem tem dinheiro, ou não, para enfrentar a pandemia e despenham-se no caos. E nem sei como aludir ao costume de se desenrascarem matando por dá cá aquela palha. Mesmo sem bala, George Floyd! Até com o mesmo joelho que genuflete treinado e convencido de que, dobrado na igreja, conquista graça divina. De passagem, lembro que também temos no cartório uma bem recente façanha de pancada até à morte interpretada por inspetores do SEF sobre um cidadão ucraniano. Como não foi filmada, mal se soube e foi rapidamente remetida para as funduras do esquecimento.
Os governantes e restantes decisores deste mundo terão muito a aprender com quem é forçado a usar a inteligência e imaginação de buscar formas de sobreviver em sociedades tão desiguais e tão mal governadas por aqueles que, não sabendo desenrascar, se gabam de saber programar.
Desenrascar implica fazer das tripas coração. Implica conseguir enroscar o parafuso que não queria enroscar ou de acender, sem candeia, a candeia no fundo do poço. Como os norte-americanos dizem não saber desenrascar, vivem tão enrascados pelas suas pretensas virtudes que até elegem um presidente de quem qualquer adjetivo foge como se fosse o Corona-19.
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