No nosso padrão climático, uns dias antes do dia de São Martinho, o anticiclone dos Açores migra para nordeste e posiciona-se durante vários dias a noroeste do Cabo Finisterra. Determina, então, as condições meteorológicas na Península Ibérica e no sul de França.
Pelo contrário, no arquipélago açoriano, com o anticiclone tão afastado da sua posição média, reza o ditado, se o Inverno não erra o seu caminho, cá virá no S. Martinho. Nesta altura do ano, com o anticiclone dos Açores a posicionar-se temporariamente a nordeste das ilhas, as condições atmosféricas no arquipélago açoriano são justamente opostas das da Península Ibérica.
No dia de S. Martinho, lume, castanhas e vinho, assim resume o adagiário de Portugal Continental a pausa de vários dias de sol entre o tempo variável de outubro - umas vezes quente e seco, outras com aguaceiros fortes que originam inundações - e o inverno natural que virá a seguir.
Formam-se (não “caem”) as primeiras geadas em noites frias e calmas de estrelas a luzir (as geadas de S. Martinho levam a carne e o vinho) e é altura de aproveitar as tardes convidativas para matar o porco e ir à adega provar o vinho. O adagiário popular constitui o corpo de saberes meteorológicos mais avançados até que a Meteorologia científica se impôs socialmente na segunda metade do século XX.
Embora o dia 11 de Novembro seja referencial, não é caso para o levarmos milimetricamente à letra. Segundo outro ditado, o Verão de S. Martinho começa no Todos-os-Santos, precisamente quando, com novembro à porta, geada na horta. Há um ou outro ano assim. Falo de uma frequência elevada de ocorrências e não mais do que isso. Toda a regra tem exceção.
Os ingleses situam em torno de 18 de Outubro um período com caraterísticas parecidas, embora mais curto, identificado como “St Luke’s Little Summer “, o Pequeno Verão de S. Lucas. Por seu lado, o adagiário do sudoeste francês consagra as mesmas interpretações e os mesmos rituais. É, também, taxativo sobre o seu início (“À la Toussaint commence l’été de la Saint-Martin”) e sobre as práticas em seu redor: “Pour la Saint-Martin, tue ton porc et gôute ton vin”.
O S. Martinho que empresta o nome a esta curta e saborosa recorrência quase estival, terá morrido em 8 de novembro de 397. Reza a lenda que, como faleceu em lugar afastado de Tours, onde era bispo e se realizaria o funeral, a viagem começou em condições penosas de muita chuva que logo evoluíram para sol resplandecente e noites de estrelas. Presumivelmente, após a passagem de um sistema frontal, o anticiclone dos Açores impôs a sua ação dissipadora de condições para chuva. Climatologicamente, no século IV, a atmosfera funcionava com padrões próximos dos atuais.
A recidiva estival, que consagra o dia do padroeiro desta tão apreciada aproximação ao verão, é também lendariamente atribuída à dádiva de metade da sua capa a um pobre seminu que o aborda, certo dia, acossado pelo vento e pela neve. Prosseguindo caminho envolto na outra metade do agasalho, S. Martinho vê, subitamente, a tempestade amainar, o céu descobrir-se e, como refere Ramalho Ortigão, “um sol de estio acariciante e resplandecente inundou a terra de alegria”. E, para que tal gesto ficasse para sempre gravado, a tradição mandou que, em todos os anos e na mesma época, se “interrompesse o Inverno, cessasse o frio, sorrissem o céu e a terra de um miraculoso contentamento”. E quase todos os anos vem a esse encontro.
[email protected]