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Cata-Ventos: Outra vez, Santa Águeda, outra vez

Costa Alves - 19/05/2022 - 9:46

O leitor estará como eu: farto. Farto de saber dos problemas desta albufeira que nos oferece o bem precioso e insubstituível da água. Pela parte que me toca, tenho orientado várias vezes a seta deste Cata-Ventos para o assunto. Comecei em 2015. Sete anos a chamar a atenção, com outras pessoas, e, mais organizadamente, a partir de 2017, quando se constituiu a Plataforma de Defesa da Albufeira de Santa Águeda/ Marateca.
O balanço tem, como saldo, zero - para não dizer abaixo de zero. Os problemas vêm-se agudizando. Reuniões atrás de reuniões com o polo de Castelo Branco da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), várias com a Câmara Municipal de Castelo Branco e uma com a do Fundão. Nada. Sete anos nisto. 
Correrias perante mais denúncias de peixes mortos e de atividades ilegais. Sejam vedações de caminhos públicos, construções ilegais, uso de pesticidas no cerejal, entre outras. Toca a informar a APA e o SEPNA da GNR. Toca a informar a Comunicação Social. Mais uma reunião com outro partido que garante levar o assunto à Assembleia da República e nada que ajude acontece. Mais uma conferência de imprensa - a última, perante o espelho de água a brilhar e um carro a apanhar sol mesmo à beira da água. Nem um cartaz educa e muito menos avisa que é uma albufeira de águas protegidas. Ouço: “Quando é que este horror acaba?”
E o lixo à volta? 4 de novembro de 2017: operação cidadã de limpeza. Não imaginávamos o tanto lixo que vegetava pela zona de proteção total da albufeira. Até pneus e um frigorífico. Como as silvas eram impenetráveis, muito lá ficou. A Câmara ficou de resolver esta parte com os Sapadores. Não resolveu.
E a experiência piloto da Plataforma para a criação, com salgueiros, de uma galeria ripícola na zona reservada? O exemplo lá ficou numa propriedade da Câmara próxima do paredão. A experiência era para que fosse continuada. Pois sim, apenas os salgueiros cresceram.
E em que ficamos quanto ao recente episódio de mortandade? Grande parte da lista de fitofármacos escolhidos pela APA para análise será incapaz, como aconteceu no passado, de detetar a causa de morte dos peixes e das aves. Comparando a lista apresentada pela APA com a dos produtos autorizados pelo Ministério da Agricultura, 75% dos fitofármacos assinalados para análise já não são comercializados e apenas 10% dos fitofármacos são utilizados na agricultura.
E os Municípios de Castelo Branco e do Fundão que têm feito? Encaminham-nos para a APA e, assim se fecha o ciclo da inoperância. Mas, no ano passado, os dois municípios concertaram-se (e o Ministério da Agricultura aprovou) para o projeto de Aproveitamento Hidroagrícola da Gardunha Sul - Bloco da Marateca. Uma das componentes inclui a retirada da albufeira de um volume de água para regadio de mil hectares em cada um dos concelhos consorciados, volume que é superior ao utilizado no abastecimento público em quatro concelhos.
Alguns meses depois, o novo executivo do município albicastrense desistia do desvio de água condicionando-o à construção da barragem do Barbaído, prevista e sempre adiada desde 2002. Leio agora na reportagem do “Reconquista” da última Assembleia Municipal palavras do Presidente da Câmara que podem estar a desdizer o que antes asseverara. Cito: “É um processo que não está fechado e que discutiremos com os albicastrenses”.
Enfim, salva-nos, por enquanto, a boa Estação de Tratamento de Água que temos.
Há dezanove anos que escrevo quinzenalmente neste jornal e nunca o fiz com desprazer. Faço-o hoje. Com paciência caída.
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