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Cata-Ventos: Pródigo junho luz

Costa Alves - 15/06/2023 - 9:48

Com o verão a estender as suas bandeiras, por enquanto fresco e húmido, relembro um “Pequeno hino a Junho”, poema de António Salvado. Uma síntese poeticamente muito elaborada sobre algumas das características climáticas do mês e sobre os efeitos que o ambiente atmosférico produz nos ecossistemas vegetais: “Pródigo, junho luz: prenhe de sol / reclinado na terra a estremecer / e lampeja d’instinto e languidez, / cheio de cio a violar as polpas / dos frutos verdejando nas ramagens. // Derrama o seu calor aureolado / de cânticos dispersos na paisagem: / beija corolas que depois desflora // e pela noite encanta-se cansado / com o púbis em flor das alcachofras.”
Albano Martins transporta “um balão aceso numa noite de junho” como revelação do que uma cidade pode ser: “Uma cidade / pode ser o nome / dum país, dum cais, um porto, um barco / de andorinhas e gaivotas / ancoradas / na areia. / E pode / ser / um arco-íris à janela, um manjerico / de sol, um beijo / de magnólias / ao crepúsculo, um balão / aceso / numa noite / de junho. // Uma cidade pode ser / um coração, / um punho.” 
Guerra Junqueiro pergunta: “Recordam-se vocês do bom tempo d’outrora, / Dum tempo que passou e que não volta mais, / Quando íamos a rir pela existência fora / Alegres como em junho os bandos dos pardais?”
“Nestas noites, a brilhar: / Não se recordam tristezas”, escreve-nos o poeta brasileiro Olavo Bilac. No hemisfério sul, é um junho ao contrário do junho daqui: “Aí vem Julho, o mês do frio / Vamos os corpos aquecer, / Acelerando o rodopio / - Pode outro mês aparecer! (…) Ardem, crepitam fogueiras (…) E os balões de S. João / Vão luzir, entre as neblinas, / Como estrelas pequeninas, / Entre as outras, na amplidão. (…) Ardei! cantai! crepitai! / Num largo e claro sorriso.”
Encontro outras respostas em ambiente de junho no poema de Ana Luísa Amaral “Carta à Minha Filha”: “Lembras-te de dizer que a vida era uma fila? / Eras pequena e o cabelo mais claro, / mas os olhos iguais. Na metáfora dada / pela infância, perguntavas do espanto / da morte e do nascer, e de quem se seguia / e porque se seguia, ou da total ausência / de razão nessa cadeia em sonho de novelo. // Hoje, nesta noite tão quente rompendo-se / de junho, o teu cabelo claro mais escuro, / queria contar-te que a vida é também isso: / uma fila no espaço, uma fila no tempo e que o teu tempo ao meu se seguirá.”
E continuo a indagar convocando uma “Manhã de Junho” de Eugénio de Andrade: “Talvez, talvez sejam os últimos / dias. Se for assim, são um esplendor. / Apesar dos aviões da Nato despejarem / bombas e bombas no Kosovo, a perfeição / mora neste muro branco / onde o escarlate / da flor da buganvília sobe ao encontro / da luz fresca da manhã de junho. / A beleza (não há outra palavra / para dizê-lo), desta manhã / é terrível: persiste, domina – / apesar dos aviões, mesmo com / bombas a cair e crianças a morrer.” Manhã de Junho que, embora atingida pelas tragédias do tempo, fica para sempre poeticamente içada.
Sophia de Melo Breyner responde dançando com as palavras, como quem dança à sua maneira com a vida. Neste poema, “Dança de Junho”, o mês solsticial de verão expõe-se inocentemente “dançando ao sabor dos seus segredos”. Sem mais: “Em silêncio nas coisas embaladas / Vão dançando ao sabor dos seus segredos. / Nos seus vestidos brancos e bordados / Raios de lua poisam como dedos, / E em seu redor baloiçam arvoredos / Escuros entre os céus atormentados.”
Tudo o que é da vida é matéria para poesia; o “pródigo junho luz” que o diga.
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