Este site utiliza cookies. Ao continuar a navegar no nosso website está a consentir a utilização de cookies. Saiba mais

Cata ventos: Sobre a epidemia do aquilo que é

Costa Alves - 22/12/2016 - 10:49

Não há político, comentador, jornalista que não utilize a bengala do “aquilo que é”. Se dizem querer reformar o sistema educativo, não dizem que querem reformar o sistema educativo. Não. Preferem dizer que querem reformar “aquilo que é” o sistema educativo. Provavelmente, com o “aquilo que é” desejam elevar o estatuto do dito sistema concedendo-lhe um caráter vago e indefinível ou, então, uma coisa tão comum e tão quase desprezível que se encontra aos pontapés em qualquer rua. Aos pontapés, sim, em qualquer rua e nas ruas da nossa língua.
Tenho que concluir que falar bem a nossa língua será para plebeus de fala direta ; sem escusados e falsos barroquismos. Plebeus que não aparecem na televisão ou que ainda não foram envenenados por essa arena. Plebeus que não fazem chover no molhado ou que não dão passos a mais do que devem. 
Ao falarem da devastação da Síria, outro assunto merecedor (assim-assim) da sua redundante atenção, também coxeiam com a mesma bengala do “aquilo que é” a guerra na Síria e sinto um arrepio a trespassar-me com a faca deste “aquilo que é” aquela guerra. Se o encontro dos Açores (de Durão Barroso a hospedar Bush, Blair e Aznar) sobre as armas de destruição massiva tivesse acontecido hoje, utilizariam o “aquilo que é” de modo bem diferente, pois o “aquilo” que fizeram no Iraque alargou-se, ultrapassou fronteiras e deu no “aquilo que é” a Síria numa devastação sem limites ao nível das mentiras que puseram a correr sabendo o que eram.
Bem sabemos que a Europa não tem rumo ou, por outra, tem a sua definição de rumo mas não é para nós nem para os nossos caminhos. Nossos? Não direi de todos, mas de mais de 90 em cada 100. Respondem: “não é isso que vai alterar ‘aquilo que é’ o nosso rumo”. O segredo está neste “aquilo que é” e nunca mencionam aquilo que é. Alguém descaiu-se um dia dizendo que era altura de “ir ao pote” e tenho pena de não ter sido agora. Se tivesse sido, havia de ser precedida por esta redundância em estado de moda: ir “àquilo que é” o pote. Seria elucidativo.
Confesso que, embora tenha, ainda, algumas migalhas do pão da paciência, posso dizer que fujo a mais do que sete pés da epidemia do tifo destas redundâncias. No entanto, reconheço que, quando o digo, também estou a ser redundante, pois ninguém consegue fugir, a um pé que seja, deste campo de concentração em que obrigam a desfilar, desta maneira, os dias do nosso modo de falar.
Garanto que ainda não apurei os ouvidos para quando falam do Natal. Isto é, a dobrar a língua com o “aquilo que é”. Vamos ver se se atrevem a aplicar a receita. Quando, retoricamente, nos desejam um feliz Natal, espero ouvi-los a desejar “aquilo que é um feliz Natal”. “Aquilo” que, como escreve a poesia de António Gedeão, está “nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,/ com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,/ cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,/ as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.” 
Quero ver se é isso que nos desejam ou se é um Natal com mais musgo e mais humildade, mais natalício e com mais natalidade, mais igualdade e mais crescimento com luz de “sol invicto”. Como nos diz o poema de António Salvado: “Vamos criar palavras. Convocar/ as flores, a alegria. Derruir/ a tristeza, a secura. Permitir/ o sangue da amizade no conforto/ dos olhos e das mãos que devagar/ se apertam e comungam se renovam.” 

[email protected]

COMENTÁRIOS