Anda por aí a toda a hora e nem nas férias dá descanso. Inventa aparições e dizem que tenta suceder a si próprio com marcas nunca atingidas. É verdade que os seus antecessores também receberam o prémio de se continuarem, mas terá na mira um céu eleitoral só ainda não alcandorado.
Teve um longo percurso por muitas atmosferas, mas manda a nossa memória curta que só interessa o que é de hoje. E é vê-lo a mergulhar em todo o lado, seja mar oceano ou oceano de ar, e até parece que nunca o tínhamos visto nestas lides.
A minha memória curta não é tão curta assim. Quando começou os voos mais largos pela política, atirou-se ao Mar da Palha para ver se nos impressionava, mas não subiu ao céu. O céu saiu a Jorge Sampaio. E terá percebido que tinha de nadar como o Baptista Pereira na longuíssima maratona do Canal da Mancha - quem se lembra?
Isto é, tinha de ultrapassar o calvário do deserto e nadar muitas mais praias, além das de Cascais. Navegou, então, mas embateu num obstáculo insuperável: António Guterres. Conclusão: tinha de mudar de praia e passou a nadar nos areais da televisão. A estratégia foi de aplicação muito demorada, cumulativa, mas resultou de tal maneira que, em 2016, estava em ponto de rebuçado.
Hoje, onde ele está, está a televisão. Digamos que é da televisão na mesma medida em que a televisão é dele. Pressurosamente, nenhuma das partes falta aos encontros. É uma relação quase siamesa. Antes, comentava uma vez por semana num só canal. Agora comenta a toda a hora em todas as estações e apeadeiros. Não há mergulho nem conversa de soalheiro que a televisão não cubra com manto angelical. É um culto da personalidade suave, subreptício, liminar e subliminar. Nunca nenhum presidente foi transportado com tanto colo dos ecrãs. E, ai de quem nele bata, nem que seja com a flor de uma palha, como podem pensar que estou a fazer nesta conversa - ai de mim!
Aos poucos, os quatro anos e meio de mandato, tornaram-no, também, presidente do Governo. E não há assunto que não estampe no ecrã. Fala do que é do Governo e do que não é e, mesmo, de assuntos de soalheiro. Fala sobre tudo e, como qualquer de nós, muitas vezes fala de um tudo que é nada. Raramente fala de assuntos de Presidente. Ocupa quase todo o meio aéreo e terrestre, além do já mencionado meio aquático. Não há pai para ele. Mas, de tanto televê-lo e teleouvi-lo, arrisca-se a que já não possamos ouvê-lo.
Além de falar diretamente para as câmaras como quem fala connosco, fotograva-se com pessoas ou em grupo, como quem cria a ilusão de ter o país todo em cena. É obra. Não tenho conhecimento de alguém que embrulhe tantas prendas com as suas queridas sélfis (posso aportuguesar?). Ficam para a tão aspirada eternidade de cada um e do seu reinado. É caso para estudo doutoramental sobre a excelência das suas capacidades (também) em ciências de telecomunicação.
Espero que não levem a mal este brincar com quem, no tempo da “Outra Senhora”, não sendo venerado, pelo menos seria carimbado como venerando. A brincadeira desta conversa, não passava, de certeza, na Censura e, no mínimo, não me considerariam “bom chefe de família”, como se dizia na altura. Chefe, recordo. E já tenho visto tratarem-no como se tivesse a comenda de Chefe do Estado estampada no peito, o que desperta memórias de fel a muitos da minha geração.
Desculparão, já passei por muito e, se não aligeirasse a tormenta com alguma dose de humor, não conseguiria aturar a parte desta vida que nos deixam para aturar.
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