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Cata-ventos: Variações sobre a culpa

Costa Alves - 08/09/2022 - 10:09

Ai a culpa! Acionar as sirenes da culpa no problema dos incêndios cheira sempre a chamusco. Preferimos chorar e acusar a mexer nas causas determinantes. Conhecemo-las há uma eternidade, mas, sistematicamente, preferimos tocar no que está à mão no final da tormenta que atravessa tantos dos nossos verões. Ou seja, descoordenações eventualmente ocorridas nos dificultadíssimos combates. Há um mês, ainda as labaredas lambiam as encostas nas cercanias das casas e já se levantava uma disputa televisionada sobre a culpa. Eram ostensivas as demonstrações de apetência pela tomada do poder na proteção civil. Duvido de que possamos sair deste anel de fogo para intervir nas causas estruturais que colocam o país numa situação de grande vulnerabilidade. 
O território está minado e a culpa vai ficar solteira porque faz por isso e não há quem a queira casar, tanta é a poeira que levantam com operações de fim de linha. Nem há quem lhe possa chegar. Chegar é forma de dizer. Quando era miúdo, ouvia pais a dizerem ao professor: “Se se portar mal, chegue-lhe!”. Hoje, diria, numa versão adaptada como eco politiqueiro: “Quem se mete com a culpa, leva!” E a culpa farta-se de se portar mal e ninguém lhe chega e, portanto, não leva.
Na verdade, na maior parte das vezes, a culpa casa-se e casa bem. Casa-se com favores, dinheirama, clientelas, poderes e poderios, eu sei lá, tubarões e até com sardinhas. E, em geral, as sardinhas pagam-nas logo ao virar a esquina; alguns barões são televisionadamente trucidados pelo sistema de justiça e os outros continuam na vida airada e até desfilam como modelos. É assim no reino da nossa Dinamarca, Shakespeare! Com todos os “pretextos para fugir do real”, Alexandre O’Neill!
Realmente, quando o deus dinheiro se intromete, a culpa veste-se de muito bem casada, com bons costumes, casarões e casaronas, templos privativos, papéis ditos comerciais, empresas fantasmas e paraísos fiscais a empreenderem no que está a dar. E, quando um dia a coisa vai abaixo, decidem que a culpa é de todos e transformam as nossas vidas em ainda mais inferno.
Vegetamos nesta selva e não sabemos como sair. Um diz que o réu é o mato, outro acusa o eucalipto e o mais volátil dos opinadores sobre tudo e sobre nada diz que os bombeiros nem olham para o que está a arder. Enfim, torneios de retórica barata que a televisão promove enquanto enche chouriços. Lengalengas que a culpa nunca desdenha como disfarce.
E assim se apagam as preocupações maiores com o desordenamento das funções do território. De passagem aludem (os factos furam a visão) aos efeitos do aquecimento global e meia bola e força que o problema principal está no combate aos fogos, combate que este ano, aliás, até demonstrou muito mais capacidades face à adversidade maior que conjugou seca extrema com ondas de calor.
Na verdade, o cartório das culpas está sempre aberto para continuar fechado. A culpa raramente se (re)conhece e muito menos se paga ou, sequer, morde a consciência. E, no entanto, como diz o povo que afinal todos somos, reconhecer a culpa é estrada de emenda. Mas não, não gostamos de a reconhecer e muito menos de a conhecer.
Em conclusão, distorcemos a avaliação cortando e distribuindo a culpa aos bocadinhos por todo o mundo e ninguém. Não conseguimos libertar-nos da incapacidade de ver e proceder além dos interesses instalados e temos sempre borrachas e mata-borrões disponíveis para fazer crer que a culpa toca a todos e, portanto, não toca a ninguém. Ai, que confusão, mestre Gil Vicente!

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